sexta-feira, 31 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 5


ONDE SE FALA DE CRIMES SEXY E DE SOMBRAS DO PASSADO - II PARTE

A mulher que estava diante de mim tinha cerca de quarenta anos, era bonita, embora com um aspecto cansado que nem os bons cremes, a hábil –e quase invisível- maquilhagem e o óptimo corte de cabelo conseguiam esconder. Estava bem vestida, de modo clássico. Não havia nela nada que fosse mau ou vulgar. No entanto, era como se tivesse gasto imenso dinheiro para passar despercebida.


Era médica, divorciada, com dois filhos quase-adultos, como agora todos são. Tinha duas moradas, a da casa, na Lapa e a do consultório, numa transversal à 5 de Outubro, que supus indicarem espaços condicentes. Tinha um estupendaço carro. Tinha uma carreira notável.


E, agora, estava ali à minha frente, a fazer um pergunta. Cuja resposta podia fazer rebentar em estilhaços bicudos e afiados aquela vida de Barbie-divorciada-é – uma-médica-de-sucesso.


Isto se os estilhaços não tivessem rebentado há muitos anos.


Rewind: Na casa de família, onde viviam os pais, os irmãos, os sogros e onde eram esperados, por ser véspera de Natal, muitos outros familiares.


Miguel, o pai, médico, suicidou-se com um tiro. Tinha quarenta anos e a minha cliente dez. Foi encontrado pela mulher, Rosarinho, a mãe dos três filhos de ambos. Muita coisa foi-me contada na terceira pessoa, como se ela se distanciasse, como se só conseguisse falar pela boca da avó.

...

Sentada na pequena escrivaninha, foi separando folhas de papel cheias de listas, que amachucava antes de atirar para o vaso de papier-machê. Não gostava de cestos de papéis que fossem notoriamente cestos de papéis.


Entrou na saleta, a que os netos chamavam “o escritório da avó”, sem por isso respeitarem a sua privacidade como faziam com os homens da casa e fechou a porta à chave.


Precisava de uns minutos sozinha. A noite ainda nem tinha começado e já se sentia tão cansada como se todos os preparativos tivessem sido realizados pessoalmente por ela e não apenas-apenas? – superintendidos ou delegados na Deolinda.


É verdade que nada, nem a decisão de por ou não por goma nos guardanapos de linho, em que se entrelaçavam - amorosamente? ternamente? Esperançosamente- pensou -esperançosamente era o termo mais apropriado, a sua inicial e a do marido. M e E. Margarida e Estevão.


Existiam na casa, no sótão, guardados em gavetas de cómodas enormes, em baús, em arcas e mais arcas e mais arcas quantidades inacreditáveis de toalhas de mesa e de banho, de lençois, de dezenas de guardanapos, de panos de tabuleiro, de fronhas de almofada e de travesseiro, em que o E se entrelaçava com outras letras. M e C. De Maria do Carmo, a primeira. A primeira mulher do seu marido, a primeira mãe dos filhos dele, a primeira nora, a primeira senhora da casa. Metros e metros de algodão, de cambraia, de linho, de seda, dobrados entre papel fino, cheios de saquinhos de canfora. Nunca mais foram usados, não se punha a possibilidade de os dar – no fundo, eram herança da Carminho, que nem um lenço levara consigo, ao casar contra a vontade do pai.


Tanto disparate, tanto desperdício – disse para si mesma. Mas não. Era assim. Eram usos e tradições que talvez parecessem cada vez mais anacrónicos à medida que os anos passavam, mas sem os quais, sentia sem saber bem de onde lhe vinha a certeza, coisas muito mais importantes se desmoronariam levando na enxurrada todo um modo de vida, que era a sua vida.


Sentada na pequena escrivaninha, foi separando folhas de papel cheias de listas, que amachucava antes de atirar para o vaso de papier-machê. Não gostava de cestos de papéis que fossem notoriamente cestos de papéis.


Já só sobrava uma folha. O memorando mais pessoal, o que escrevia para si própria. Quem se sentava – e sobretudo quem não se sentava - ao pé de quem. Temas a evitar. Perguntas a fazer e a não fazer.


E as cartas dos pequenos. Sorriu. Com a chegada das crianças, da televisão, dos hábitos dos amigos de colégio, fora cedendo à iconografia americana, à árvore enfeitada, aos presentes embrulhados prontos para distribuir à meia-noite.


Mas as cartas eram dirigidas ao Menino Jesus. O Pai Natal ainda não tinha entrado em sua casa.


Foi passando os pequenos envelopes. Desde que os netos sabiam escrever que guardava os seus pedidos infantis, uma demonstração de ternura que quase a envergonhava. Foi lendo os pedidos, dos quais se encarregava pessoalmente – livros, os bebés-chorões que tinham recentemente chegado às lojas, assim como o Lego e o Mecano. Um carro a pedais, escrito com a letra da irmã- sorriu - um microscópio, um Atlas – o Tomás e o João Pedro estavam a crescer tão depressa!


Parou. No meio dos bilhetes pautados, com desenhos de azevinho, estrelas e anjos, estava uma folha de papel de carta normal, adulta, dobrada em quatro. Quando é que tinha mexido a ultima vez nos pedidos? Na véspera ou na antevéspera? De qualquer modo, alguém colocara aquilo ali, furtivamente, tendo o cuidado de a misturar com as outras.


Desdobrou a folha. As frases estavam escritas a tinta permanente preta. Pouco mais eram que rabiscos, mas julgou reconhecer a letra do filho. João. O meu filho, quando penso em filho é sempre nele que penso. O meu filho. Apesar da Marga, do Filipe e da Teresinha.


“Tentei com todas as minhas forças. E mesmo assim não consegui. Talvez afinal seja um fraco, ao contrário do que todos pensam. E nesta época, ainda por cima. É ridículo pensar nisto. Quero pedir desculpa à Rosarinho…


O texto acabava assim, sem ponto final, sem assinatura. A letra era inegavelmente do filho, mas as palavras, ou o sentido que pareciam fazer, não podiam ser menos características dele.


Que disparate! Uma brincadeira? Um engano e aquilo, fosse o que fosse, não se destinava aos seus olhos?


Levantou-se com a folha na mão, sentindo-se de repente tonta, quase agoniada. Sacudiu o puxador duas vezes até se lembrar de que tinha fechado a porta à chave. Para estar sossegada, quieta, em paz, antes da longa noite que a esperava. Uma premonição, achou depois.


Saiu para o grande hall, para onde davam as portas das salas e a escada para o primeiro andar.


Estranhamente estava deserto, talvez tivessem ido todos descansar um pouco para os quartos, acabar a toilette, nem as criadas se viam, nem as crianças…


Ouviu uma espécie de gemido, como um animal ferido. Não conseguiu identificar o som, só percebeu que vinha de cima, o que fez com que erguesse os olhos para a escadaria. A Rosarinho vinha a descer, devagar, agarrada ao corrimão com as duas mãos, como uma inválida. Sentiu a onda de impaciência física que a nora lhe provocava cada vez com mais intensidade. Já nem a beleza dela lhe causava o efeito que parecia ainda causar nos outros. Com o cabelo louro pelos ombros, os olhos turquesa de gata nas feições perfeitas de criança, o conjunto de camisola e casaquinho de lã creme e as slacks de veludo preto, estava, como sempre, impecável, apropriada para a ocasião mas original, o cabelo preso atrás da orelha deixava uma pequena pérola à vista, e o classicismo do conjunto compensava o facto de ir jantar de calças na véspera de Natal.


Esta capacidade de escolher tão bem a roupa, de aparecer sempre tão bem cuidada, de fazer umas entradas tão…cinematográficas, fazia-a sempre duvidar das misteriosas maleitas e nervosos da nora, mesmo quando o comportamento dela tornava evidente que estava perturbada.


Como neste momento. Suspirou.


- Onde é que está o João, Rosarinho? Sentes-te mal? Vai para a sala que eu peço para te levarem um chá de tília, não vamos para a mesa tão cedo…- uma forma de disfarçar os sentimentos contraditórios era atacar, falar sem parar e tomar decisões. Há anos que se apercebera que eram os outros a moldar o comportamento da mulher do filho. Se não lhe dissesse nada, era capaz de ficar ali na escada, sem subir nem descer. Assim, estaria apropriadamente sentada a beber um chá, o que a tornava aceitável e…enfim. Normal.


Que exagero, repreendeu-se a si própria imediatamente antes de se aperceber que o gemido saia da boca da mulher para quem olhava. Esta parou e soltou uma das mãos, que esfregou lentamente na camisola creme.


- Cuidado, que te estás a sujar toda de baton, - ainda disse, mesmo sabendo que não era de baton que se tratava e que o terror, sim, porque fora terror, mesmo não confessado - que sentiu ao descobrir o bilhete do filho tinha razão de ser e que o inferno ia começar para todos naquela casa. Mas sobretudo, para ela.


...

Interrompi.


-Está bem, percebi tudo. A sua avó sofreu imenso. Vocês, a família próxima, sofreram imenso. O seu pai suicidou-se com um tiro na véspera de Natal mas aconteceu há mais de trinta anos. O que é que quer de mim, exactamente?


(a pedir pelas alminhas que não fosse o que eu pensava. Claro que era)


-Quero que me diga quem matou o meu pai. Porque eu tenho a certeza de que ele não se suicidou.


Apeteceu-me abaná-la.


-Quem é que estava na casa? A sua avó, as crianças, os empregados, os seus primos mais velhos e uns convidados deles, a dormirem... pouco provável, não acha. E quem mais?


-Ninguém... só... só a minha mãe.


Ficámos em silêncio, enquanto ela digeria a história. A mãe dela, que assim que surpreendeu o marido a ensaiar bilhetinhos informando da decisão de abandonar a família, tirou uma arma do armário onde estavam guardadas, carregou-a e matou o marido. A seguir pôs a arma em cima da secretária, retirou as cartas que ele estava a escrever, escolheu a que não estava manchada de sangue e pô-la entre os bilhetes que se encontravam na secretária da sogra.


Voltou para o quarto, tomou banho, arranjou-se cuidadosamente, voltou ao escritório do marido, verificou se estava tudo como o tinha deixado, a dramática cena, a cabeça para trás, o sangue na parede. Sangue. Tocou numa mancha.


E desceu a escada para a sogra a ver. Mulher eficaz. Que enganou toda a gente.


Agora, era com esta realidade que a minha cliente tinha que se haver. Ela parecia mais calma do que a maior parte das pessoas no seu lugar. Talvez, no fundo, desconfiasse da verdade há muito tempo.


Passou-me um cheque, guardou a factura cuidadosamente. Demos um aperto de mão. Não voltei a vê-la.


FIM


(A autora deste Folhetim, até aqui anónimo, chama-se Teresa Font)

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