segunda-feira, 6 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 1

ONDE SE APRESENTA A AUTORA E SE FALA DE ACTIVIDADES MAIS OU MENOS APROPRIADAS.

Sou detective.

Não é uma profissão fácil quero dizer, não é fácil declará-la. Imaginem-se num jantar de semidesconhecidos, ambiente simpático, com algumas promessas de engate, algumas criaturas interessantes na mesa, alguns olhares trocados, aqueles jantares em que metade das pessoas quer sangria de champagne e a outra metade um vinho tinto decente e todos conseguem o que desejam.

Enfim, a primeiríssima parte do que desejam. Mas 1-1 é um resultado bom. Um resultado que augura outros.


E quando todos acertaram – ah, a mão invisível! – em tratar-se por ‘tu’ ou por ‘você’, quando conhecidos e primos comuns já foram desentocados, mas não em demasia, para não perder a graça, quase antes da fase de se tomar partido por alguma ninharia e das afinidades electivas se construírem em formas mais concretas, aparece a pergunta fatal. ‘E então, o que é que faz?’. Uma tragédia, isto que fazemos definir-nos. Por outro lado dá origem a respostas engraçadíssimas, quando saímos fora do: – ‘estou entre projectos’, ‘ajudo o meu marido no nosso negócio de imobiliária’, ‘escrevo’ ou ‘trabalho com a bolsa de valores’.


Agora imaginem: – ‘Sou detective’. Tau!


Porque ninguém pensa no Poirot ou na Miss Marple. Pensam no IRS, na ASAE. Em contabilidade criativa. Pensam no motel onde, sem dar por isso, a semana passada… Pensam nos pecadilhos. Em pensões de alimentos, em vidas das quais fugiram, mas que pairam sobre eles. Pensam em coisas más. Pecados antigos. Longas sombras. Às vezes, em coisas mesmo muito más.


Por isso nunca respondo. Sorrio. Bebo um gole da mistela que me calhou em sorte. Digo que labuto em coisas de família, ou que faço traduções, ou que estou a escrever, mas para a gaveta… Ou pura e simplesmente que sou rica-esta é desconcertante. Deixo suspeitas, ‘teúda e manteúda’? (ai estas expressões...), aventureirinha? Forrada de dinheiro, seja ele de família ou de uma bela pensão de divórcio? Habilidosa da vida, das que vão arranjando vagos tachos a reboque de políticos? Seja o que for, tudo tem que ser leve. E nunca, por nunca, posso deixar que suspeitem da verdade.


Ah porque. Não tinha dito? Sou mulher. Uma mulher-detective.


Existe coisa pior? Por acaso existem várias e mesmo nós somos mais do que pensam. E não, não pertenço a nenhuma polícia. Sou mesmo como o Marlowe. Private-eye.


O bom da profissão é ser tão divertida. O mal da profissão é ser tão divertida. Como uma linha de coca boa. Não há nada que vicie mais, que nos agarre mais do que o desejo de saber.


Fora isso moro neste hotel. Que foi um achado. Quarto e sala. Na vida tenho dois gatos e algumas outras personagens que irei apresentando.


Chamo-me Ana. Parece-me bem. O mais famoso biombo. Ana O.

2 comentários:

  1. Comentários? Só depois de (no mínimo) três installments. Venham lá eles, pf.

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    1. Gratos pelo comentário e interesse. Os próximos capítulos já estão na calha.

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