segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Heróides (Cartas de amor), de Ovídio



FEDRA A HIPÓLITO

«A saudação que, se lha não enviares tu, vai faltar-lhe a ela,
é o que envia a mulher de Creta ao varão filho da Amazona.
Lê-a por inteiro, seja como for. Em que é que a leitura de uma carta pode ser danosa?
Pode bem haver nela alguma coisa que te seja, ainda, grato.
Com estas linhas, há segredos que são levados por terra e por mar;
observa o inimigo as linhas que do inimigo recebeu.
Três vezes tentei falar-te, três vezes me ficou colada, sem préstimo,
a língua, três vezes, à entrada da boca, se desvaneceu o som.
Até onde nos for consentido e formos capazes, devemos juntar
vergonha ao amor;
aquilo que tive vergonha de dizer, o amor me ordena que o escreva;
tudo quanto o Amor ordena, desprezá-lo não é seguro;
ele governa e tem poder sobre os deuses que tudo mandam.
Ele, no começo, ante a minha hesitação em escrever, disse-me:
“Escreve. Aquele homem de coração de ferro há-de estender-te as mãos, de vencido.”
Que ele me acompanhe, e, tal como inflama, com fogo insaciável, as minhas entranhas,
assim trespasse o teu coração do meu desejo.
Não é por perfídia que vou romper o meu pacto conjugal;
a minha fama, quem dera que o indagasses, está isenta de crime.
Chegou tanto mais forte o amor, quanto mais tardio; ardo por dentro;
ardo, e uma ferida cega atormenta-me o coração.»


Heróides (Cartas de amor), de Ovídio
*Tradução de Carlos Ascenso André

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