quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Teatro Desagradável, de Nelson Rodrigues

«(Herculano chega em casa. Tem um certo cansaço feliz.)
HERCULANO (gritando): Geni! Geni!
(Aparece a criada negra.)
NAZARÉ: Veio mais cedo, dr. Herculano?
HERCULANO: Nazaré, cadê d. Geni?
NAZARÉ: Saiu.
HERCULANO: Mas eu avisei! Telefonei do aeroporto dizendo que já podia tirar o jantar.
NAZARÉ: Pois é.
HERCULANO: Foi aonde?
NAZARÉ: Não disse.
HERCULANO (entre espantado e divertido): Que piada!
NAZARÉ: Ah, mandou entregar isso ao senhor.
(Ao mesmo tempo, Nazaré apanha em cima do móvel um embrulho.)
HERCULANO (falando à criada): Estou com uma fome danada! É um caso sério! Mas o que é?
NAZARÉ: Isso aqui.
HERCULANO (recebendo o embrulho): E, nem ao menos, deixou recado?
NAZARÉ: Comigo não deixou.
(Herculano, intrigadíssimo, abre o embrulho.)
HERCULANO: Fita de gravação! (não entende) Boazinha!
NAZARÉ: D. Geni disse para o senhor não deixar de ouvir o disco.
HERCULANO: Que disco? Ah, a fita! (muda de tom) Nazaré, deixa de brincadeira. Ela está aí, não está aí?
NAZARÉ: Não estou brincando.
HERCULANO (num rompante): Geni! Geni!
NAZARÉ (rindo): Juro!
HERCULANO: Vai buscar o aparelho, vai. Isso é algum palpite. Apanha lá.
(Nazaré obedece.)
HERCULANO: Agora me lembro. Me dá isso aqui. Geni me disse, no telefone, que tinha uma surpresa para mim, não sei o quê. Surpresa.
(Ao mesmo tempo que fala, Herculano está colocando a fita. Sem pressa e divertido.)
HERCULANO (examinando o aparelho): Ela está aí, sim. Aposto a minha cabeça. Quero ser mico de circo. De que você está rindo?
NAZARÉ: Estou rindo, porque o senhor não está acreditando, dr. Herculano. Saiu!
(A fita está colocada. Herculano aperta pela primeira vez o botão. Sons esquisitíssimos de fita invertida. Pára e vira-se para Nazaré.)
HERCULANO: Olha, vai fazer um cafezinho rápido.
NAZARÉ: Carioquinha?
HERCULANO: Bem carioquinha.
NAZARÉ: Melhorou do estômago?
HERCULANO (entretido no aparelho): Assim, assim. Esses médicos são umas bestas! (muda de tom) Melhor um pouco, sei lá. Mesma coisa. Chispa, vai buscar o café.
(Sai Nazaré. Então, sozinho, Herculano assovia e prepara-se para ouvir a gravação. Apaga-se o palco. Nas trevas, ouve-se a voz de Geni.)
GENI: Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei.»

"Toda nudez será castigada" in Teatro Desagradável, de Nelson Rodrigues
(selecção das peças por Bernardo Carvalho)

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