sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Heróides, de Ovídio


«Digno de pranto é meu amor; a elegia é o canto de quem chora;
nenhuma lira fica bem a minhas lágrimas.
Ardo, como, quando os Euros desgovernados ateiam o fogo,
se incendeia, de seara em chamas, o fértil campo.
Habita Fáon os campos distantes do Etna, de Tifeu;
possui-me a mim um calor não menor que o fogo do Etna.
E não me ocorre um canto que eu possa acompanhar com cordas
afinadas; o canto é ocupação de quem nada tem que fazer.
E não me são aprazíveis as jovens de Pirra ou de Metimna
nem a turba das demais jovens de Lesbos;
por vulgar tenho Anactória, por vulgar tenho a cândida Cidro;
não é grata ao meu olhar Átis, como antes era,
e centos de outras que não sem pecado eu amei.
Malvado! O que de muitas foi, és o único a possuí-lo!
Tens em ti beleza, tens uma idade azada para o prazer;
ó beleza traiçoeira para meus olhos!
Enverga a lira e a aljava e transformas-te num autêntico Apolo;
ajuntem-se chifres à cabeça e serás Baco;
e Febo amou Dafne, e Baco a de Gnossos;
e não conheciam os metros líricos nem uma nem a outra.»

Heróides, de Ovídio
(trad. Carlos Ascenso André)

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