segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Grosso modo, de Jacinto Lucas Pires

«Ele vira-se, sorri na direção dela mas não exatamente para ela. Não diz nada, a resposta só vai até àquele ponto, uma expressão ambígua, um sorriso lento, cansado. Tem menos dez anos do que ela e já está cansado. Talvez tenha sido isso, essa negra gravidade de gestos num homem tão novo, que primeiro impressionou a mulher quando os dois se conheceram no salão demasiado iluminado do pequeno-almoço. Não que ele parecesse esquisito, do tipo agressivo ou artístico. Não, não apresentava os habituais sinais de perigo. Apenas uma indiferença, um desprendimento raro de ver em alguém com menos de quarenta anos. O modo de não se mexer, não se virar, de não falar demais. Alguém que se está nas tintas para o mundo sem fazer alarde disso. Perfeitamente nas tintas.
“Vamos ao cinema”, diz ela.
E aí, sim, riem-se os dois.
Berlim é um retângulo de luzes desfocadas. À janela do quarto de hotel, a mulher e o homem admiram a elegância com que o céu poisa no cimo dos prédios em frente. O homem-rapaz cheira a cigarro e sabonete e Sofia imagina que está dentro de uma história, a começar uma história nova. Que loucura, o que é que eu estou aqui a fazer? O americano pode muito bem matá-la se quiser. Tem uns olhos não bem azuis, afinal, acinzentados, e ela chama-lhe Pedro. “Peydroh?” diz ele.
Quem os filmasse do fundo do quarto não veria duas pessoas mas a silhueta de um monstro de quatro braços à procura dos bolsos que não tem para esconder as mãos.»


Grosso modo, de Jacinto Lucas Pires

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