quarta-feira, 20 de julho de 2016

Alguns Poemas, de Francis Ponge

Ainda o Sol, por Francis Ponge:
 Vincent van Gogh, 1889
«Que o sol brilhe ao alto e à esquerda na primeira página deste livro, é normal.
Brilhante sol! Primeiro, exclamação de alegria, – responde-lhe a aclamação do mundo (mesmo através das lágrimas, porque é graças a ele que elas brilham).
Há razão para crer (curiosa expressão), que estamos no interior do sol; ou pelo menos no interior do sistema do seu poder e do seu amor.
O dia é a polpa de um fruto cujo caroço seria o sol. E nós, afogados nessa polpa como as suas imperfeições, as suas manchas, pedras grosseiras no interior do mármore: seus 'sapos', nós somos assimétricos em relação ao seu centro. A sua irradiação envolve-nos e atravessa-nos, vai brincar muito para além de nós.
A noite é o espectáculo, a consideração; mas o dia a prisão, os trabalhos forçados do azul.
Este astro é o próprio orgulho. O único caso de orgulho justificado.
Satisfação com quê? Satisfação consigo, dominação de tudo.
A todo o criado, ele ilumina-o, aquece-o, recreia-o.
"O sol dissipa a nuvem, recreia e depois penetra enfim o cavaleiro. E nem usou todo o seu poder..." (La Fontaine, Poebus et Borée.)»

Alguns Poemas, de Francis Ponge
(trad. Manuel Gusmão)

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