sexta-feira, 8 de julho de 2016

A realidade do artista, de Mark Rothko


«Muitas vezes descreve-se a arte como uma maneira de fugir à acção. Sublinha-se que os artistas, considerando demasiado incómodas as coisas práticas do mundo, se retiram do domínio da verdadeira actividade e se escondem num universo de imaginação para se livrarem desses incómodos. Habitualmente, considera-se que o universo da verdadeira actividade é aquele em que o homem se ocupa — seja em comunidade, seja individualmente — da satisfação das suas próprias necessidades físicas. Enganar a fome ou o desconforto físico é próprio do universo da acção realista. Com a melhoria do nível de vida, aumentou muitíssimo a quantidade de coisas que satisfazem as necessidades físicas do homem. Originalmente, essas necessidades seriam: comida suficiente para aplacar a fome, um abrigo de protecção contra as inclemências meteorológicas, e roupa para afastar as pneumonias. Hoje, porém, um homem não pode viver sem casa de banho com mosaicos, sem instalação sanitária, aspirador ou um fato de bom corte; e uma mulher não passa sem as inúmeras mudanças de vestuário no princípio e no fim da estação, nem sem os incontáveis aparelhos e instrumentos que ajudam a poupar tempo. Estes instrumentos para poupar tempo contribuem supostamente para o lazer, que deve ser preenchido satisfazendo os impulsos estéticos. E o lazer reclama os seus ornamentos; e, em primeiro lugar, tem que ser atractivo. Por último, participar na produção e na distribuição destes incontáveis dispositivos é algo que se vem gradualmente incorporando na esfera das necessidades reais do homem, que originalmente se saciavam com a mais elementar provisão de alimentos, roupa e abrigo. Quem passar a vida a produzir ou adquirir os referidos enfeites pertencentes às necessidades físicas, leva uma vida activa. (...)
Still LIfe with Bread and Fruit, de Marsden Hartley
Isto pressupõe, claramente, serem as necessidades físicas o centro da existência, e que outras necessidades, se existirem, estarão automaticamente satisfeitas. Tal assunção é contrariada pelo facto de a saúde ser pior nas classes sociais que podem adquirir estes bens facilmente. Não existe no mundo classe tão atacada por distúrbios neurológicos, os chamados distúrbios imaginários, que a ciência recentemente descobriu serem muitas vezes mais destrutivos e menos curáveis do que as doenças ‘reais’, consideradas legítimas. A classe subordinada, que presumivelmente se dispõe a abdicar da sua própria vida para que todos esses itens necessários fiquem mais disponíveis para toda a sociedade, é uma classe muito mais sã. Porquê? Porque são pessoas que, pelo simples facto de serem idealistas, estão realmente a satisfazer uma necessidade tão grande quanto o são as necessidades físicas. Aqui, o idealismo conduz a um tipo de acção que ocorre a par de outras formas de acção auto expressivas, sem as quais o homem não consegue manter-se de boa saúde.
A arte é uma dessas acções. É um tipo de acção parente do idealismo. São ambos expressões de um mesmo impulso, e quem não consegue satisfazer esse ímpeto de uma ou outra maneira é tão culpado de escapismo quanto quem não consegue
ocupar-se a satisfazer as suas próprias necessidades físicas. Na verdade, aquele que passar a vida inteira a fazer girar as rodas da indústria a ponto de não lhe sobrar tempo, nem energia, para se ocupar de quaisquer das outras necessidades do seu organismo humano é, de longe, mais escapista do que quem
desenvolveu a sua própria arte. Pois aquele que desenvolve uma arte própria ajusta-se forçosamente às suas necessidades físicas e compreende que temos que ter pão para viver — enquanto o outro não compreende que não podemos viver apenas de pão.»

A realidade do artista, de Mark Rothko
(trad. Fernanda Mira Barros)

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