quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf


«Baixa, morena, de olhos fogosos, com uma pena de faisão no chapéu, Mrs. Jarvis era precisamente o tipo de mulher susceptível de perder a fé nos moors – ou seja, de confundir Deus com o universal –, mas não perdeu a fé, nem deixou o marido, nunca acabou de ler o poema e continuou a passear nos moors, a contemplar a lua por entre os olmos e a sentir, quando se sentava na espessa relva ao alto de Scarborough… Sim, sim, quando é largo o voo da cotovia; quando as ovelhas, dando um passo ou dois, arrancam o pasto e ao mesmo tempo fazem tinir os sinos que trazem ao pescoço; quando uma brisa começa a soprar e depois morre deixando um beijo no rosto; quando no mar lá em baixo os navios parecem cruzar-se e passam como que puxados por uma mão invisível; quando no ar se ouvem distantes concussões e cavaleiros fantasmas galopam e estacam; quando o horizonte líquido é azul, verde, emocional – então Mrs. Jarvis suspira e pensa para consigo “Se alguém me pudesse dar… se eu pudesse dar a alguém…”. Mas não sabe o que quer dar, nem quem dar-lho poderia.»

O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf (trad. Maria Teresa Guerreiro)
Capa da primeira edição, de 1922,
ilustrada pela irmã de Virginia Woolf, Vanessa Bell

Sem comentários:

Enviar um comentário