segunda-feira, 4 de abril de 2016

Seis Contos Morais, de Eric Rohmer

O AMOR, À TARDE
«No comboio, gosto muito mais de ler um livro do que o jornal, e não só devido à comodidade do formato. O jornal não mobiliza grandemente a minha atenção, e sobretudo não me faz sair o bastante da vida presente. Actualmente, sou fanático por relatos de exploração. O livro que tenho comigo é a "Viagem à volta do mundo", de Bougainville. O meu trajecto, de manhã à noite, corresponde mais ou menos à dose de leitura que gosto de absorver sem interrupções.

À noite, em casa, também leio, mas outras coisas. Gosto de fazer várias leituras simultaneamente, cada uma no seu tempo e no seu lugar, e todas me transportam para fora do tempo e do lugar onde vivo. Mas não poderia ler, se estivesse sozinho numa cela de paredes nuas: preciso de uma presença física a meu lado.
Quando era estudante só podia ficar no meu quarto, depois de jantar, quando tinha de estudar. Agora, eu e a Hélène saímos pouco. Ela é professora de Inglês no Liceu de Saint-Cloud e, à noite, prepara as aulas ou corrige testes. O facto de estar, por vezes, a mil léguas dela, em pensamento, só torna mais doce a sensação da sua proximidade física... Porque é que, na multidão das belezas possíveis, fui sensível à sua beleza? Já não sei muito bem.»


L'amour l'après-midi (1972), Éric Rohmer
Seis Contos Morais, de Eric Rohmer
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

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