sexta-feira, 22 de abril de 2016

Porquê Ler Marx Hoje?, de Jonathan Wolff


Marx já não tem nada a dizer-nos? Valerá a pena voltar a lê-lo? Na verdade, Marx parece ter-se tornado um anacronismo: o falhanço dos regimes marxistas arrastou-o inequivocamente para uma zona proibida; a queda do Muro de Berlim é hoje o símbolo da queda das políticas e economias marxistas. Neste livro, Jonathan Wolff defende que Marx continua a ser o mais impressionante crítico de sempre da sociedade liberal, capitalista e burguesa, e que se deve separar o 'crítico da sociedade actual' do 'profeta da sociedade futura'. O valor dos grandes pensadores não depende apenas da verdade ou validade das suas teorias e Marx é dos maiores pensadores de todos os tempos. Merece, evidentemente, continuar a ser lido.
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«O dinheiro é a parte central da explicação de como é possível a alienação em relação às outras pessoas. Funciona como um biombo para trás do qual não costumamos olhar. Mas este não é o único efeito negativo que o dinheiro tem. Nos Manuscritos de 1844, Marx também se permite um pouco de crítica literária, reflectindo sobre um passo longo do "Timão de Atenas" de Shakespeare e sobre um passo mais curto do " Fausto" de Goethe. Cita Shakespeare quando este nos diz que o ouro "vai fazer do branco, preto; do belo, horrível; do certo, errado; do nobre, vil; do novo, velho; do valente, cobarde" (Colletti 376).
Marx faz aqui uma série de comentários distintos mas relacionados. Em primeiro lugar, afirma-se que o dinheiro subverte e muda tudo aquilo em que toca. O dinheiro mercantiliza, transforma e degrada as relações humanas. Devia-se gostar das pessoas, por exemplo, porque são simpáticas ou talvez por causa das suas relações familiares. Mas, numa sociedade capitalista, pode-se gostar de pessoas porque são ricas e vilipendiar outras porque são pobres. Devíamos admirar aqueles que impõem respeito pelas suas acções, pela sua visão, ou pela preocupação com os outros. Mas, mais uma vez, tendemos a admirar os que são ricos, independentemente de como lá chegaram. Em segundo lugar. o dinheiro corrói e tudo, mais cedo ou mais tarde, tem o seu preço. Hoje pagamos a outros para fazerem coisas que dantes eram feitas porque se achava que era isso o que as pessoas deviam fazer umas pelas outras - tomar conta dos nossos filhos ou dos nossos pais quando são velhos, por exemplo. A economia capitalista está cheia de pessoas que pagam umas às outras para fazerem coisas que já foram feitas sem pensar em pagamento. O dinheiro, dizem Marx e Shakespeare, é a "prostituta universal".»

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«...pensem no sistema de crédito, que é talvez o sistema financeiro elevado ao mais alto grau de abstracção. Aqui, diz Marx, a decisão de conceder crédito a um indivíduo pode mesmo ser um assunto de vida ou de morte para ele. (Fica-se a pensar se Marx falará por experiência própria.) E neste sistema de financiamento sem dinheiro físico o indivíduo torna-se a unidade monetária. Assim, para obter crédito é muitas vezes necessário ser-se "económico com a verdade" acerca do próprio passado e futuro. É preciso falsificar-se a si mesmo. Isto, por sua vez, gera uma indústria de espiões e bisbilhoteiros, dedicados à manutenção de registos e à investigação para saber quem é "merecedor" de crédito. E aqui está a linguagem humana rebaixada de outra forma. "Qual é o seu valor líquido?" e "Que crédito é que você tem?" são perguntas sobre riqueza e escalão de crédito, não sobre a avaliação moral do carácter.
O cume final é o sistema bancário e a bolsa de valores. E já vimos o que isso nos pode fazer: pode fazer "crash" a toda a nossa volta.»


Jonathan Wolff
(trad. Joana e Francisco Frazão)

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JONATHAN WOLFF é Professor de Filosofia no University College de Londres. É autor de "Uma introdução à Filosofia Política" e co-autor de uma colecção sobre Pensamento Político da Oxford University Press.

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