segunda-feira, 11 de abril de 2016

A noite em que a noite ardeu, de A. M. Pires Cabral

PRINCÍPIO ACTIVO

Pergunto-me às vezes qual será
o princípio activo de uma noite que arde.

Ou melhor: qual será o meio comburente
em que ela se alonga e se compraz.

Será servidão? Será viagem?Será renúncia ao sono
— aquele sono que costuma vir
furtivo, como que a pedir desculpa,
quando a luz da manhã já força as persianas?

Será o inclemente apelo da distância
que se me faz sempre mais distância
à medida que caminho para ela?

Será apenas vómito
embrulhado em trevas —
— coisas que não foi possível digerir,
restos, dúvidas, silêncios culposos,
trapos embebidos em bílis e suor?


A noite em que a noite ardeu, de A. M. Pires Cabral

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