quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

À Espera de Godot, de Samuel Beckett


«VLADIMIR: Lembras-te da história?
ESTRAGON: Não.
VLADIMIR: Queres que ta conte?
ESTRAGON: Não.
VLADIMIR: Ajuda a passar o tempo (Pausa). Eram dois ladrões que foram crucificados ao mesmo tempo que o nosso Salvador. Um deles -
ESTRAGON: O nosso quê?
VLADIMIR: O nosso Salvador. Dois ladrões. Dizem que um foi salvo e que o outro foi... (procura o contrário de "salvo")... condenado.
ESTRAGON: Foi salvo de quê?
VLADIMIR: Do inferno.
ESTRAGON: Vou-me embora.
(Não se mexe)
VLADIMIR: E no entanto... (Pausa.) Como é que - espero não te estar a aborrecer - como é que, dos quatro evangelistas, apenas um fala do ladrão que foi salvo. Estiveram lá todos - ou pelo menos não andaram longe - e só um deles fala de um ladrão que foi salvo. (Pausa.) Então, Gogo, de vez em quando podias dizer qualquer coisa.
ESTRAGON: (com um entusiasmo exagerado) Isso é extraordinariamente interessante.
VLADIMIR: Um em quatro. Dos outros três, dois deles nem sequer falam de ladrões e o terceiro diz que os dois o insultaram.
ESTRAGON: Quem?
VLADIMIR: O quê?
ESTRAGON: O que é que estás para aí a dizer? (Pausa) Insultaram quem?
VLADIMIR: O Salvador.
ESTRAGON: Porquê?
VLADIMIR: Porque ele não os queria salvar.
ESTRAGON: Do inferno?
VLADIMIR: Não, estúpido! Da morte.
ESTRAGON: Pensava que tinhas dito do inferno.
VLADIMIR: Da morte, da morte.
ESTRAGON: Então e depois?
VLADIMIR: Então devem ter sido os dois condenados.
ESTRAGON: E porque não?
VLADIMIR: Mas um dos quatro diz que um dos dois foi salvo.
ESTRAGON: E depois? Não estão de acordo, paciência.
VLADIMIR: Mas estiveram lá os quatro. E só um deles é que fala de um ladrão que foi salvo. Porque é que devemos acreditar mais nesse do que nos outros?
ESTRAGON: Quem é que acredita nesse?
VLADIMIR: Toda a gente. Só se conhece essa versão.
ESTRAGON: As pessoas são mesmo umas ignorantes de merda.
(Levanta-se a custo, coxeia até à esquerda, pára, olha para longe com a mão na testa a proteger os olhos, vira-se, vai à direita, olha para longe. Vladimir segue-o com o olhar, depois pega na bota, olha para dentro, larga-a precipitadamente.
VLADIMIR: Bah!
(Cospe. Estragon vai ao centro da cena e fica de costas para a plateia.)
ESTRAGON: Que sítio encantador. (Vira-se, vai até à boca de cena, olha para o público.) Perspectivas animadoras. (Vira-se para Vladimir.) Vamos embora.
VLADIMIR: Não podemos.
ESTRAGON: Porquê?
VLADIMIR: Estamos à espera do Godot.»

Samuel Beckett
(tradução de José Maria Vieira Mendes)

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