segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Teatro Desagradável, de Nelson Rodrigues

TODA A NUDEZ SERÁ CASTIGADA

«HERCULANO
O que é que uma prostituta pode me dar?
PATRÍCIO
É simples, tão simples! Pode te dar (vivamente) num sorriso, numa palavra, num gesto, sei lá. Pronto: relação humana. Você, Herculano, está aí nessa dor burra. Isso não é nem viril. Você sofre, muito bem. E daí? Uma dor idiota que não conduz a nada.
HERCULANO (taciturno)
Sofro pouco. Devia sofrer mais.
PATRÍCIO
Você quer morrer?
HERCULANO (triunfante)
Agora você disse tudo. Morrer. Só não meto uma bala na cabeça — por causa do meu filho. Só. (começa a chorar) Eu devia estar enterrado com a minha mulher.
PATRÍCIO
Ou você não percebe que essa inércia é uma degradação?
HERCULANO (desatinado)
O que é que você entende de degradação? Você que.
(Herculano agarra Patrício pela gola do paletó.)
PATRÍCIO
Olha! Faz alguma coisa! Ao menos, bebe! Bebe, pronto!
HERCULANO (atônito)
Foi por isso que você trouxe essa garrafa?
PATRÍCIO (exultante)
Toma um porre! Você está cheirando mal, apodrecendo!
HERCULANO (num crescendo)
Beber? Ah, você quer que eu beba? Sabendo que eu não posso tocar em álcool? Eu só bebi uma vez, aquela vez. Você viu como eu fiquei. (agarra o irmão pela gola do paletó) Bêbado, eu posso ser assassino, incestuoso. Agora você vai dizer, na minha cara — vai dizer se gosta de mim! (os dois irmãos estão cara a cara)
PATRÍCIO
Estou querendo te salvar.
HERCULANO
Ou é ódio?
PATRÍCIO
Pena!»

Nelson Rodrigues in "Teatro Desagradável"
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
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«A obsessão pela morte é um delírio alimentado pelo desejo. Ninguém escapa. (...) Moral e perversão se confundem. Sexo e morte andam de mãos dadas. E o humor de Nelson Rodrigues vem da disparidade entre o que dizem, sentem e fazem os personagens. Porque, por mais que falem, estão condenados a sentir e a fazer o que condenam da boca para fora.»
Bernardo Carvalho, no texto de apresentação da obra

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