quarta-feira, 16 de setembro de 2015

São Cosme e São Damião, de Rubem Braga

SÃO COSME E SÃO DAMIÃO
«Escrevo no dia dos meninos. Se eu fosse escolher santos, escolheria sem dúvida nenhuma São Cosme e São Damião, que morreram decapitados já homens feitos, mas sempre são representados como dois meninos, dois gêmeos de ar bobinho, na cerâmica ingênua dos santeiros do povo.
São Cosme e São Damião passaram o dia de hoje visitando os meninos que estão com febre e dor no corpo e na cabeça por causa da asiática, e deram muitos doces e balas aos meninos sãos. E diante deles sentimos vontade de ser bons meninos e também de ser meninos bons. E rezar uma oração.
“São Cosme e São Damião, protegei os meninos do Brasil, todos os meninos e meninas do Brasil.
Protegei os meninos ricos, pois toda a riqueza não impede que eles possam ficar doentes ou tristes, ou viver coisas tristes, ou ouvir ou ver coisas ruins.
Protegei os meninos dos casais que se separam e sofrem com isso, e protegei os meninos dos casais que não se separam e se dizem coisas amargas e fazem coisas que os meninos vêem, ouvem, sentem.
Protegei os filhos dos homens bêbados e estúpidos, e também as meninas das mães histéricas ou ruins.
Protegei o menino mimado a quem os mimos podem fazer mal e protegei os órfãos, os filhos sem pai, e os enjeitados.
Protegei o menino que estuda e o menino que trabalha, e protegei o menino que é apenas moleque de rua e só sabe pedir esmola e furtar.
Protegei ó São Cosme e São Damião! — protegei os meninos protegidos pelos asilos e orfanatos, e que aprendem a rezar e obedecer e andar na fila e ser humildes, e os meninos protegidos pelo SAM, ah! São Cosme e São Damião, protegei muito os pobres meninos protegidos!
E protegei sobretudo os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobra e seus olhos que podem pegar tracoma — e afastai de todo perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil, ó Glorioso São Cosme, Glorioso São Damião!”»

Rubem Braga, in "Conversa de burros, banhos de mar e outras crónicas exemplares"
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
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«Rubem Braga, apesar de apenas dever a fama às suas crónicas, está consciente dos limites do género: “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento.” Para muitos, porém, ele encarna o que o género tem de melhor. Homem de esquerda, de extensa e variada vida pública, ele sempre, sem ignorar as injustiças sociais, procura uma nota mais íntima e menos “engajada”, como se vê muito claramente em “São Cosme e São Damião”, prece por “todos meninos e meninas do Brasil”, inclusive os ricos.
A sua crónica talvez seja a mais difícil de definir e, ao mesmo tempo, a que melhor define o que é uma crónica (...).»
John Gledson, no texto de apresentação da antologia por si organizada

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