segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os ratos, de Dyonelio Machado



«Depois de uma trégua, os ratos voltaram a roer, a roer... Outra vez naquele canto do assoalho de comedouro o triturar fininho de madeira roída (decerto é a madeira). Talvez depois de consumido o dinheiro, eles passem a roer, a roer a tábua da mesa... Presta atenção. Alonga o ouvido. Espera ouvir o crepitar miudinho das mandíbulas, vindo lá do fundo, de longe...O seu ouvido pega mil ruidozinhos de novo, capta outra vez aquele chiado, o tinir do malho na bigorna...


Tudo se vai agora confundindo nos seus ouvidos. Só individualizado, independente, o roer, o roer da tábua do assoalho...
Quem sabe se será mesmo do soalho, do soalho da varanda!... Talvez não seja. Deitado, àquela hora, no meio daquele chiado, o ouvido confunde as distâncias... Quer "localizar" exatamente. É a sua tarefa, a grande questão desse instante. Procura afastar o chiado incômodo. Mas ele se avolumou, tomou conta outra vez do quarto, e novamente aquela esfera, aquela bola... Está tão perto dos seus ouvidos, que ele quase que o sente com o tato. Entretanto, precisa eliminá-lo, precisa isolar apenas o roer do rato na madeira... (...)
Põe outra vez o ouvido no ar: vê se pega de novo o ruído do rato. Parecera-lhe surdo, meio redondo, abafado pela espessura da madeira...
Está exausto... Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando... Quereria dormir...»

Os ratos, Dyonelio Machado
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«(...) Os Ratos continuam até hoje, no nosso presente longínquo e desgarrado, a colocar-nos frente a frente com uma situação inquietante de alheamento e desespero, na qual ainda nos podemos espelhar, condenados, também nós, ao ratage, ao jogo incerto e invencível da vida – presos, enfim, na ratoeira sem saída da nossa humana condição.»
"Ratage - O 'trivial dramático' em Os ratos", posfácio à obra, por Ettore Finazzi-Agrò
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)

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