sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos

UM HOMEM SEM ABISMOS

«Encontrei Florêncio, ao sair da Secretaria, e passamos a tarde juntos. Onde está Florêncio, está o chope, e não preciso dizer que entramos em águas. Anotação para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. Não é que tenha procurado embriagar-me. Só nos tempos de república isso me aconteceu algumas vezes, em companhia de alegres estudantes.
É que Florêncio, achando-me disposto, foi, sorrateiramente, renovando-me os copos. Entretanto, fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende, não da quantidade de álcool ingerida, mas do estado de espírito sob que a ingerimos.
Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. Está sempre provido das melhores e mais recentes. Excelente e repousante amigo. Não tem problemas: é o homem sem abismos — o homem linear — na expressão do Silviano. Às vezes penso que, dos poucos amigos descobertos, no decurso destes magros trinta e oito anos, só ele me restará, afinal. Redelvim, o fiel companheiro, deixa-me pelas idéias. Silviano é uma criatura complicada, com quem a gente não pode contar sempre. Se às vezes nos compreende, outras vezes se mostra impermeável; vive nos seus “altiplanos”. Glicério não passa de uma criança. Pertence a outra geração, e as gerações não se entendem; as preocupações são outras, e outra é a compreensão das coisas.
Jandira, por mais que seja masculina a nossa amizade, não é senão mulher, e a mulher é vária, conforme ensina a ópera.
Além disso, pode ser que se case, e era uma vez a amiga.
Quando se casam, só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. No que, aliás, fazem muito bem.
Talvez só me fique o Florêncio. E a bebida pode levá-lo cedo. 
Se eu me casasse… Ora, aí vem tolice. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925, e está num cemiteriozinho branco, no Largo do Cruzeiro, em Vila Caraíbas. Por que te deixei, Camila? Na verdade, eu te amava. O que amo nessa Carmélia, que não atinjo, é, talvez, apenas a tua imagem.»


in "O amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
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«Do ponto de vista da fortuna crítica, pode-se dizer que o livro não passou desapercebido, sendo objeto de análises pontuais, embora não de grande fôlego, de críticos brasileiros conhecidos: Antonio Candido, por exemplo, destaca o diálogo que o texto estabelece entre lirismo e análise, bem como a sua filiação machadiana. Considera que a “visão dramática da vida”, que seria propriamente machadiana, soma-se, n’O amanuense Belmiro, a um “maravilhoso sentido poético das coisas”.»
Alcir Pécora, no posfácio à obra

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