sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Jesus sem milagres

Frederico Lourenço

Página da "Jefferson Bible"
No final da sua vida, um antigo presidente dos Estados Unidos da América dedicou-se afincadamente ao estudo da vida de Jesus, tal como ela é relatada pelos quatro evangelistas. Feita uma reflexão aprofundada sobre os evangelhos, o antigo presidente pegou numa navalha bem afiada e pôs-se a retalhar as páginas da sua edição da “King James Bible”. Cortou dos evangelhos tudo aquilo que ele pensava ser relevante para o conhecimento de Jesus; depois colou, juntou, e remontou os pedaços de papel: e assim obteve um texto dos evangelhos com que ele podia concordar. De fora, ficava tudo aquilo que, na leitura dele, não passava de fantasia, de superstição, de mentira. De fora ficavam todos os milagres alegadamente praticados por Jesus e a ressurreição daquele que, na opinião de Jefferson, nunca quisera apresentar-se como filho de Deus.
Cristo caminhando sobre as águas, na imaginação do pintor italiano Tintoretto
Ora no entender de Thomas Jefferson (o terceiro presidente dos EUA, cuja efígie se encontra na nota de 2 dólares), os evangelistas eram praticamente uns analfabetos, que, não obstante relatarem muitas palavras autênticas de Jesus, encheram também os evangelhos de ficções supersticiosas e ridículas, como a virgindade de Maria (que Jefferson achava ser tão provável quanto o nascimento da deusa grega Atena da cabeça de Zeus), os milagres e exorcismos de Jesus e a ressurreição. A versão que, com navalha e tesoura, Jefferson compôs dos evangelhos termina com Jesus a ser sepultado.
Para Jefferson, a mensagem de Jesus era essencialmente filosófica e, dentro da filosofia, era uma mensagem que tratava acima de tudo de assuntos de Ética. Por isso ele chamou à primeira versão do seu Novo Testamento feito com tesoura e navalha “The Philosophy of Jesus of Nazareth”. Uma segunda versão recebeu o título mais explícito “The Life and Morals of Jesus of Nazareth”.
O que fica do testemunho de Jesus se lermos os evangelhos na versão de Thomas Jefferson? Um Jesus que não caminha sobre a água, que não pratica a multiplicação dos pães, que não cura cegos, paralíticos e leprosos e que não expulsa “demónios” é um Jesus que nos diz alguma coisa? Um Jesus que não ressuscita Lázaro dos mortos e que não subiu ao céu no terceiro dia após a sua morte ainda nos pode falar à distância de dois mil anos? A versão de Thomas Jefferson dá-nos uma resposta clara a estas perguntas. É uma resposta simples: sim.


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