quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Tempestade, de William Shakespeare

«MIRANDA
Se por vossa arte, querido pai, pusestes
Neste alvoroço as bravas águas, acalmai-as,
Por favor. O céu parecia querer derramar
Fétido breu, se o mar, subindo à sua face
Enevoada, não lhe apagasse o fogo.
Ai, o que eu sofri com os que eu vi sofrer!
Um tão soberbo barco, tendo certamente
Nobre gente a bordo, desfeito em pedaços.
Ai, como aqueles gritos me feriam o coração!
E morreram essas pobres almas.
Fora eu um poderoso deus,
E faria que o mar na terra se afogasse,
Antes que engolisse a bela nau,
E com ela a carga de tantas almas.
PRÓSPERO
Sossega. Não te assombres mais.
Diz a teu condoído coração
Que não houve dano algum.
MIRANDA
Oh, que triste dia!
PRÓSPERO
Não houve dano. Tudo o que fiz,
Fi-lo só cuidando em ti, em ti,
Minha querida, em ti, ó minha filha,
Que ignoras quem és, e não sabes
De onde eu venho, nem que sou melhor
Que Próspero, senhor de uma pobre gruta,
E teu humilde pai.
MIRANDA
Para saber mais
Nunca eu sondei meus pensamentos.
PRÓSPERO
Chegou a altura de mais te revelar.
Ajuda-me a tirar o manto mágico.
(Miranda ajuda-o a despir-se.)
Isso. Repousa aí, minha magia.
Seca as tuas lágrimas: serena.
O terrível espectáculo do naufrágio,
Que em ti moveu a mais profunda compaixão,
De tal modo o concebi por minha arte,
Que nenhuma alma—sim –
Nem um cabelo sequer, se perdeu
Das criaturas que no barco ouviste gritar
E que tu viste afogar-se. Senta-te,
Pois agora vais ter que saber mais.»

(trad. José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto e Luis Miguel Cintra)

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