quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O servidor de dois amos, de Carlo Goldoni

«Goldoni é um reformador cauteloso. Não se pôs a destruir as formas velhas, caducas embora, estudou-as, calçou-as com os sapatos sujos da realidade, encontrando nelas as lentes que lhe permitiram observar a vida, esse segredo escancarado. No imenso cortejo que ele criou, repleto de pais burgueses e filhas casadoiras, criados espevitados e aristocratas empobrecidos, comerciantes espertos e notários ávidos, encontramos a reduzida galeria de tipos que fizera a comédia popular, os Pantaleões, os Arlequins, as Colombinas, os Brighella da tradição. Mas, ao volteface permanente desse teatro de todos os efeitos, a que, em "O Servidor de Dois Amos" simultaneamente rende homenagem e volta costas, contrapõe Goldoni um outro tempo dramático. As suas peças serão cada vez mais lentas, as intrigas mais desnudadas, o enredo rarefaz-se, as cenas serão mais demoradas, as conversas mais importantes do que as reviravoltas da intriga, é como se o carrocel tivesse que parar e o teatro de Goldoni apanhasse as personagens na volta final e na descida, quando se apoiam umas às outras, depois do sarrabulho, depois da vertigem. É que o mundo está a mudar, muda.»

Voltar sempre a Goldoni — e sorrir, por Jorge Silva Melo (prefácio ao 1º volume das "Peças escolhidas" de Carlo Goldoni)

*Tradução da peça O servidor de dois amos por Alessandra Balsamo
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