sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Jornada para a Noite, de Eugene O'Neill

«Participando igualmente do realismo superior de um Ibsen, pelo qual se reformara o teatro nos fins do século passado, e da vaga de expressionismo que varreu os palcos no primeiro quartel deste século, muito lido na poesia e na filosofia em voga no seu tempo (essas leituras são largamente referidas nesta peça), profundamente marcado pelo seu "background" católico e irlandês e pelas aventuras marítimas da sua mocidade tempestuosa, Eugene O'Neill ergueu uma obra estranha e poderosa - de quem, como ele disse, estava primacialmente interessado nas relações do homem com Deus (...). Dessa obra, "Jornada para a Noite" é, de certo modo, o coroamento.»

Jorge de Sena, tradutor de "Jornada para a Noite", na introdução à obra.
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«TYRONE: Tem tento na língua! Vê se engoles esse calão ordinário de vadio da Broadway! Não tens piedade? (Perdendo o domínio.) O que eu devia era pôr-te na rua a pontapés! Mas, se o fizesse, tu bem sabes quem choraria e pediria por ti, e te desculpava e te lamentava até que eu te deixasse voltar.
JAMIE: (um espasmo de dor lhe perpassa no rosto) Raios! E eu não sei isso? Piedade? Tenho por ela toda a piedade do mundo! Compreendo muito bem como é dura a luta que ela trava... Mais dura do que o pai jamais conheceu! A minha linguagem não quer dizer que eu não tenha sentimentos. Eu estava simplesmente a declarar cruamente o que todos sabemos e com que temos de viver agora, mais uma vez. (Com amargura.) Os tratamentos não valem de nada, a não ser por pouco tempo. A verdade é que não há cura, e que fomos uns anjinhos em esperar...
(Cinicamente.) Porque nunca mais voltam a ser o que eram!
EDMUND: (com desprezo, parodiando o cinismo do irmão) Não tornam a ser o que eram! É tudo uma treta! Tudo um fingimento de tarados que não valem nada. (Com desdém.) Meu Deus, se eu sentisse como tu sentes...
JAMIE: (por momentos ferido, e depois secamente, encolhendo os ombros) Julguei que sentias. A tua poesia não é muito alegre. Nem o é o que lês e dizes admirar. (Indica a pequena estante ao fundo.) Por exemplo o teu bem-amado. o que tem um nome que nem se pode pronunciar!
EDMUND: Nietzsche. Não sabes de que estás a falar. Nunca o leste.
JAMIE: O bastante para saber que é uma patacoada!
TYRONE: Calem-se ambos! Há pouca diferença entre a filosofia que aprendeste com os vadios da Broadway, e a que o Edmund bebeu nos livros que lê. Ambas estão mais que podres. Vocês desprezaram os dois a fé em que foram nados e criados... a única verdadeira, a da Igreja Católica... e a vossa descrença só trouxe perdição!
(Os dois filhos fitam-no com desprezo. Esquecem a briga que os separa e unem-se contra ele.)
EDMUND: Isso é que é a treta, papá!
JAMIE: Ao menos não fingimos . (Causticamente.) Não noto que tenha gasto os joelhos das calças a ir à missa.»

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