quinta-feira, 20 de agosto de 2015

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder

"As Lágrimas Amargas de Petra von Kant", de Rainer Werner Fassbinder (tradução de Yvette K. Centeno), é uma nova reedição da Cotovia:


«KARIN: Pára de chorar, Petra, por favor. Olha, eu gosto de ti, a sério, amo-te... mas... (Encolhe os ombros. Petra chora descontroladamente.) Era evidente que eu de vez em quando dormiria com um homem. Sou assim. Mas não nos prejudica em nada. Eu só me sirvo dos homens, não lhes dou mais valor do que isso. É só um divertimento. Palavra. Falaste sempre em liberdade e assim. Disseste sempre que entre nós não havia compromissos... Não chores! Olha, já sabes que eu volto para ti.
PETRA: Dói-me tanto o coração. Como se mi tivessem enterrado uma faca no peito.
KARIN: Não faz falta doer, o coração. Nem eu nem tu precisas disso.
PETRA: Nem eu nem tu 'precisamos' disso. Sujeitos no singular ligados por 'nem', obrigam ao verbo no plural se a acção pertence a ambos os sujeitos.
KARIN: Ah, Petra. Claro que não sou tão inteligente como tu, nem tão educada. Sei isso muito bem.
PETRA: És bela. Gosto tanto de ti. Dói-me tudo, de tanto gostar de ti. Meu Deus, meu Deus. (Vai arranjar uma bebida.) Queres outra?
KARIN: Não, tenho que ter cuidado com a linha.
(Olham uma para a outra, começam a rir ao mesmo tempo, param também de rir quase simultaneamente, ficam a olhar uma para a outra mais um momento, e depois Petra volta-lhe as costas.)»

Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) colabora, em 1966, com o Büchner Theater de Munique e com o Action Theater. A partir de 1971 estabelece-se como escritor, encenador e realizador, dando um notável contributo para a nova dramaturgia e filmografia alemãs. A sua produção é marcada por um realismo agreste, que põe a descoberto as grandes paixões e as pequenas turpitudes dos indivíduos e dos grupos sociais, no tempo de sofreguidão e violência que é o nosso.

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