segunda-feira, 22 de junho de 2015

Poema "As crianças doentes", de A. M. Pires Cabral



            I

As crianças doentes estão ao colo das mães
na sala de espera, amortecidas
como flores num vaso a que não se muda a água
há muito tempo
ou uma daquelas revistas cuja capa,
de tanto folheadas, se vai esfarrapando.

Soltam breves vagidos onde é possível ouvir
não só a dor, mas também
o quanto estão surpresas por estarem ali,
em vez de em sua casa ou num bosque.


            II

As crianças doentes ao colo das mães
pesam mais:
trazem disseminado pelo corpo
o peso excedentário, intruso da doença.

As mães falam desse peso com as outras mães,
comparam entre si os pesos que carregam,
suspiram, acarinham, aconchegam a roupa
das crianças doentes.


            III

Na verdade, as crianças doentes
não estão ao colo das mães.

Estão no rosto das mães, vincadas nele
como as mascarras de zarcão no rosto
de um palhaço de circo.


IV

Quando morrem, as crianças doentes
passam a chamar-se anjinhos e são dadas à terra
em pequenos ataúdes brancos.

Porque se acredita
que o branco se dissolve menos
na escuridão do novo ambiente,
conserva intacta a candura em que morreram.

(Porque morrem as crianças doentes?)

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A. M. Pires Cabral

(Este poema foi publicado em primeira mão no blog paosointegral.blogspot.com, de David Rodrigues)

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