terça-feira, 9 de junho de 2015

NOITES DO MÊS DE JUNHO


[A Luis Cernuda]


Por vezes lembro-me
de certas noites de junho daquele ano,
quase esvaídas, da minha adolescência
(era em mil novecentos suponho
e quarenta e nove)
                              porque nesse mês
sentia sempre uma inquietação, uma pequena angústia
como o calor que principiava,
                                                nada mais
que a especial sonoridade do ar
e uma disposição vagamente afectiva.

Eram as noites irremediáveis
                                               e a febre.
As altas horas de estudante só
e o livro intempestivo
junto à janela de par em par aberta (a rua
recém-regada desaparecia
em baixo, entre a ramaria iluminada)
sem uma alma para levar à boca.

Quantas vezes me lembro
de vós, tão distantes
noites do mês de junho, quantas vezes
me saltaram as lágrimas, as lágrimas
por ser mais que um homem, quanto quis
morrer
            ou sonhei vender-me ao diabo,
que nunca me escutou.
                                     Mas também
a vida domina-nos porque precisamente
não é como a esperávamos.


Jaime Gil de Biedma, in Antologia Poética

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