sexta-feira, 10 de abril de 2015

A cultura é cara? Experimentem a ignorância



Porque continua a ser tão difícil passar a ideia de que o investimento na cultura fica muito mais barato do que o não -investimento?
Talvez porque, a pretexto dos valores intrínsecos e da opacidade (verdadeira) da criação artística, o seu financiamento apareça como obscuro por não ser comunicado, publicitado ou defendido com a clareza desejável para o comum cidadão contribuinte.
Este título foi retirado de uma tabuleta na vitrina de Gwrizienn Café -Librairie (livraria na comuna de Bécherel, na Bretanha), uma das 18 livrarias — a maioria alfarrabistas — que, juntamente com uma padaria e dois cabeleireiros, constituem o comércio local desta comuna francesa nascida na Idade Média e que actualmente tem uma população de 750 habitantes. Lugar de peregrinação dos bibliófilos europeus que, a par dos compradores ocasionais e das vendas pela Internet, a transformaram num caso de sucesso económico e de auto -sustentação para os comerciantes e a localidade. Mas nem sempre foi assim.
Tudo começou em 1989, e se esta cité du livre — uma das oito localidades francesas que reivindicam a designação — mereceu destaques recentes, nomeadamente no jornal “Le Monde”, tal deve -se à persistência, à organização, à imaginação na escolha, na diversidade e na promoção dos acervos (que vão da banda -desenhada ao livro bretão), ao espírito de entreajuda e de agrupamento de livreiros e à
defesa da singularidade dos seus mercados, tanto junto dos grandes monopólios como das direcções regionais do Estado francês. Tudo isto fez o sucesso destes livreiros que, “sem venderem a alma ao diabo, são livreiros felizes”, como os próprios dizem.
Não é um exemplo único de capacidade de criação, de produção e de comunicação na área da cultura. Só na área cultural dos livros poderíamos apontar muitos outros exemplos, como Fontenoy -la -Joûte, com 15 livreiros e 300 habitantes, ou, numa escala bem maior, o sucesso e a importância cultural do Festival de Literatura de Edimburgo ou da febril e brasileira FLIP (Festa Literária Internacional de
Paraty), em que, durante quatro dias, 30 mil a 40 mil leitores ocupam uma pequena vila turística e piscatória pagando para ouvir falar de livros.
Qualquer destes casos implica uma relação com o dinheiro, está portanto atravessado pelas leis da economia e envolve custos para os leitores, investimento dos livreiros, dos patrocinadores e das diversas instâncias dos Estados dos países onde o evento tem lugar. Um dos exercícios importantes a fazer a partir deste caso de estudo prende -se com a necessidade inescapável de haver investimento e custos na cultura. Imagina -se quão pobres, quão entediantes, quão menos importantes seriam a França, a Escócia, o Brasil e o mundo sem estes lugares de formação e preservação da cultura? Quanto mais custaria, de facto, a ignorância provocada pela inexistência destes e de outros lugares: festivais de cinema, cinematecas, mostras de dança, museus, centros de interpretação, lugares de observação científica, tantos outros lugares de formação da humanidade? 
Então, porque continua a ser tão difícil transmitir esta ideia simples de que o investimento financeiro na cultura sai muitíssimo mais barato do que o não -investimento?
Uma das razões está no facto de o termo “Cultura” ter perdido eficácia. Ao falar de Cultura, a pergunta imediata pode ser: que cultura? Depois, importa reconhecer que o impacto da cultura é muito subjectivo, pelo que o seu valor intrínseco é de difícil prova. Assim, urge encontrar o vocabulário certo e adequado aos dias de hoje, o que exige outro tipo de argumentação.
Essa mudança de vocabulário que deve exigir -se agora a muitos artistas e autores implica a passagem de uma postura reactiva e de uma linguagem de vitimização para uma atitude pró -activa e com uma linguagem mais consonante com o equilíbrio entre direitos e deveres.
Haverá muitas razões para a ineficácia dos argumentos tradicionais sobre o valor da cultura. Uma das maiores é confundir tudo num único argumento reduzido à expressão corriqueira do “dever do apoio às artes”. Assim, sem mais justificação.
Outros maus argumentos contribuem para este bloqueio: o de que os desígnios de todas as actividades artísticas e/ou culturais são os mesmos e universais, com o mesmo tipo de consequências directas na vida dos cidadãos. Ora, os direitos e deveres dos seus protagonistas variam conforme os países e sobretudo conforme a área da expressão cultural. Por mais que se queira insistir por hábito, por comodismo ou por corporativismo que o apoio financeiro à cultura artística deve ser um dever indiferenciado, há diferenças fulcrais entre o meio do cinema e o dos livros, para dar dois exemplos.
Nesses dois meios, que aliás têm em comum o facto de poderem (ainda que não necessariamente) ser decorrentes de mecanismos industriais, existem diferenças abissais: de custos de produção, de custos de divulgação, de mecanismos de difusão e de recepção, de custos nos mecanismos de distribuição intermédios, de número de cópias, de condições psicológicas e de tempos de recepção e de acolhimento por parte dos últimos destinatários.
O mesmo se poderia dizer das diferenças entre meios equivocamente tão semelhantes quanto são os museus de arte antiga e as colecções de arte contemporânea, a começar pela sua criação. Os museus de arte antiga, de forma geral, já “existem”, por isso têm tradições de funcionamento e de constituição de acervos que pouco têm a ver com a constituição dos novos acervos de colecções de arte contemporânea.
Os saberes técnicos e de difusão exigem especificidades e até as questões de natureza ideológica envolvidas são diferenciais e podem ser conflituosas, como as condições de acolhimento e de conservação. Implica isto uma guerra de géneros artísticos ou um divórcio de comunidades? Não
necessariamente, e até pode haver excelentes especialistas de banda -desenhada que o são também de história de arte antiga. Mas serão raros e saberão distinguir os problemas e as singularidades de cada género e a forma como comunicam com os seus destinatários sobre os mesmos.
Esta diversidade de géneros tem reflexo na diversidade fria das receitas e dos públicos — e este é um facto que a linguagem política deve colocar como vantagem quando se abordam os ganhos da cultura. Deveria haver um Ministério da Cultura para cada um dos géneros em causa?
Poderia parecer que sim, não fora o facto de os ministérios da cultura não deverem ter como objectivo prioritário serem ministérios das artes mas antes organizações de gestão transversal cujo objectivo maior consiste em possibilitar a fruição artística e cultural dos cidadãos através do
apoio à criação e difusão da cultura artística.
No que diz respeito à relação dos poderes do Estado com as artes e com as actividades culturais, é muitas vezes incompreensível e sobretudo pouco transparente para o cidadão contribuinte a forma como os apoios são dados (de uma forma geral em toda a Europa). A pretexto dos valores intrínsecos e da opacidade (verdadeira) dos projectos ou dos trabalhos, muitas decisões aparecem como obscuras,
não sendo comunicadas, publicitadas ou defendidas com a clareza e a linguagem que seriam desejáveis para o cidadão comum.
É claro que há valores intrínsecos às obras de arte e de culto que não podem ser contabilizados com os critérios dos apoios financeiros à agricultura, à defesa, à saúde pública. Por isso, mais necessário é que todos os intervenientes nas políticas culturais comuniquem bem os mecanismos de financiamento ou de selecção de projectos. Mesmo, repita -se, e repita -se até à exaustão, que toda a dimensão artística possa ser um encontro privado entre o cidadão e a obra, e mesmo que toda a obra e toda a actividade cultural impliquem um elevado grau de opacidade e até de mistério.
Salvaguardando estas características e estes valores intrínsecos traduzidos radicalmente na arte conceptual ou na poesia experimental, no documentário ou no cinema de autor, nas monografias e nas iluminuras, no teatro beckettiano ou na escrita esotérica de Gabriela Llansol, etc., etc., a cultura artística, literária e científica pode contribuir para capacitar as pessoas para a sua vida privada ou profissional, para comunicar o que noutras linguagens se afigura incomunicável, e para múltiplas aplicações, entre as quais a de uma experiência privada e íntima de realização, que justificam que, no seu conjunto, a cultura custe dinheiro — e custe dinheiro a todos nós, que somos os seus beneficiários.


in Miscelânea. de António Pinto Ribeiro

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