terça-feira, 3 de março de 2015

Os anjos nus, de A. M. Pires Cabral



O sexo dos anjos:

«Num domingo em que o Padre Lázaro fez uma homilia sobre a honestidade e o recato, a Menina Florinda achou que tinha chegado o momento e, terminada a missa, foi ter com o reverendo à sacristia onde ele se desparamentava.
- Ouvi com muita atenção a sua homilia, senhor Padre Lázaro. E, ao ouvi-lo, pensei para comigo: belas palavras. Mas como se pode exigir aos fregueses modéstia e recato nos modos e nas palavras, se na própria igreja se pode ver todos os dias um atentado contra essas mesmas virtudes?
O Padre Lázaro franziu o sobrolho.
- A que atentado se refere, Menina Florinda?
- À nudez dos anjos.
- Hum... - fez o Padre Lázaro, assim como quem nunca tinha pensado no assunto, mas a quem a coisa parecia fazer sentido.
- Há um remédio... - arriscou a Menina Florinda.
- E qual é esse remédio?
- Cristo disse pela boca de Mateus: «Se a tua mão ou o teu pé são para ti ocasião de pecado, corta-os e lança-os para longe de ti.»
- Sim. E também disse: «Se o teu olho é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti.» E depois?
- Depois, se as partes vergonhosas dos anjos são motivo de pecado, não há como cortá-las e lançá-las para longe.
O padre voltou a fazer "hum".
- Estou a ver. Amanhã falaremos - concluiu o Padre Lázaro.


O Padre Lázaro e a Menina Florinda entendiam-se às mil maravilhas. Se ela dizia mata, ele dizia esfola. De forma que a sorte dos anjinhos ficou ditada nesse encontro da manhã seguinte. Havia de facto que mondar as ervas daninhas, modo de dizer: cortar cerce os afrontosos pénis. (...) No fim do auto-de-fé, olharam-se, ufanos do dever cumprido: tinham acabado com uma grave ameaça aos ditames da santa religião.

(...) passados tempos, começou a verificar-se um estranho fenómeno que alguns juraram a pés juntos ser vingança divina: no lugar de onde os piriléus foram decepados, a madeira começou lentamente a rachar. A rachar. Lentamente. A rachar. E a certa altura, os anjinhos nus estavam transformados em... anjinhas nuas, se assim se pode dizer.»

Os anjos nus, de A. M. Pires Cabral

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