sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Janelas Altas, de Philip Larkin


DINHEIRO

Cada três meses, talvez, o dinheiro censura-me:
"Porque me deixas para aqui sem me dar uso?
Sou tudo o que nunca tiveste em bens e em sexo.
Ainda os podias gozar se passasses uns cheques."
Olho então para os outros, vendo o que fazem com o deles:
Não o guardam no colchão, com toda a certeza.
Já vão na segunda casa e mulher e carro:
Que dinheiro tem algo a ver com a vida, fica claro
- De facto, têm muito em comum, se virmos bem:
Não se pode adiar para a reforma o ser-se jovem;
E pondo a queca no banco, o dinheiro a poupar
Só compra um último serviço: que nos venham barbear.
Escuto o canto do dinheiro. É como contemplar,
Do alto de amplas janelas, uma vila de interior:
Os casebres, o canal, a barroca e doida igreja
Ao sol do fim da tarde. É uma imensa tristeza.


Philip Larkin, in Janelas Altas (trad. Rui Carvalho Homem)



 Jackson Pollock, Silver Over Black, White, Yellow, and Red (1948)

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