quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço

Tendo sido o seu primeiro romance, Pode um desejo imenso (Prémio PEN Clube 2002), de Frederico Lourenço, resultou numa trilogia a que se juntaram os títulos O curso das estrelas, no mesmo ano, e À beira do mundo (2003). Em 2006, a intenção do autor foi reunir tudo num único volume, mantendo o verso camoniano como a força aglutinadora do sentido geral desta obra faseada: Pode um desejo imenso. Nesse ano, o autor recebeu, por unanimidade do júri presidido por Eduardo Lourenço, o Prémio Europa / David Mourão-Ferreira, numa iniciativa conjunta da Universidade de Bari, do Instituto Camões e da Fundação Gulbenkian. Este prémio consiste na tradução para italiano e para outras três línguas europeias da mais actual edição de Pode um desejo imenso e comprova, assim, o reconhecimento internacional de Frederico Lourenço.


“A progressão narrativa torna-se indissociável da progressão ensaística e, entre uma e outra, constroem-se articulações de recíproca iluminação do próprio sentido da ficção que nos é proposta.
Nuno Galvão, um jovem professor universitário, especialista de literatura e filosofia clássicas e da obra de Camões, sente-se muito atraído por um aluno, Filipe, namorado de Patrícia, também sua aluna, e desenvolve uma espécie de processo de sedução mais ou menos contida em relação a ele. (…)
A narração é feita num registo muito sóbrio, que não exclui um diálogo de mordaz ironia entre Nuno e o pai, nem uma página de bela intensidade sobre Lisboa, nem várias alusões musicais de grande refinamento, nem uma série de incursões de alta erudição, nomeadamente no tocante à tópica clássica, grega e latina.”

Vasco Graça Moura, Os Meus Livros


Fala-nos Vasco Graça Moura de um “diálogo de mordaz ironia entre Nuno e o pai”, ei-lo:


«– Salsa picadinha?
– Isso mesmo. Mas conte lá, Nuno, ainda não me disse nada sobre o seu colóquio. Vai apresentar alguma comunicação?
 – Vou. Amanhã de manhã, logo às nove. Era para ter sido hoje, mas o nosso amigo Mendes teve um ataque de obscurantismo...
 – Em que aspecto? Bom, não me admira nada: dá-me ideia que os processos mentais dele são impenetráveis até para ele próprio. Mas isso é que é o besugo? Não me diga que vai comer isso?
Nuno não fez caso desta última observação. – O obscurantismo foi mais denotativo: ele pura e simplesmente não gostou do título da minha comunicação porque vinha lá a palavra “homoerótico”.
António levantou os olhos da espetada e fitou o filho. Da sua expressão não era possível depreender a que é que ele estava a reagir.
– Homoerótico ? Isso é o quê?
– É grego, Pai. Hómois, semelhante; eros, amor: utiliza-se para designar sentimentos eróticos entre pessoas do mesmo sexo.
– Sentimentos eróticos? – perguntou António. – Isso não é um pleonasmo?
– Não necessariamente. Aliás, não me parece que a palavra “sentimento” seja susceptível de integrar uma expressão pleonástica. Pleonasmo implica redundância, não é? Acho que no amor nunca há o perigo de redundância; ou melhor: pode-se ser redundante à vontade no sentido em que chover no molhado é já de si uma componente própria do estado de estarmos apaixonados; é monocórdico amar-se alguém, deliciosamente monocórdico... tomáramos que a pessoa amada fosse duas vezes ela própria!
 – Desculpe?
– Estou a pensar no soneto em que Camões se compara a Télefo, o Amfortas grego, que só podia curar a ferida com a mesma arma que a tinha infligido. Não será isso mesmo que ele quer dizer? O amor enquanto pleonasmo: ferido de ver-vos, claramente / Com vos tornar a ver Amor me cura.
– Isso que você está a tentar formular é um axioma ou um teorema?
– Tem de ser obrigatoriamente uma coisa ou outra?
– Não sei se obrigatoriamente – disse António. – Agora, o que eu acho é que os dados deveriam ser mais incontroversamente objectiváveis, o que não é (de longe!) o caso naquilo que está a tentar dizer. Tanto mais que lá o seu “homoerotismo” me parece prima facie um caso óbvio que prova a existência de uma forma de amar intrinsecamente pleonástica. Agora, quando você afirma que o facto de uma coisa ser por natureza pleonástica isenta ipso facto essa mesma coisa de incorrer em pleonasmo, isso parece-me um absurdo absoluto. Por isso é que perguntei se era um axioma.
– Não, Pai, não é um axioma. É só um pequeno occupational hazard de quem lê muito Camões.»


Sem comentários:

Enviar um comentário