terça-feira, 25 de novembro de 2014

Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert

Gustave Flaubert (1821-1880) situa-se no ponto de confluência das correntes romântica e realista. Submetendo o romance a regras fixas de observação, transformou-o em obra de arte harmónica, impessoal, que vive da sua beleza própria. Entre outros escritos de juventude, é autor de Les Funerailles du Docteur Mathurin (1839) – inserido em As Escadas Não Têm Degraus 2 –, de Mémoires d’un Fou (1838), e de Novembre (1842) [editado pelos Livros Cotovia], que indiciam já L’Education Sentimentale. A partir de 1851, e depois de ter publicado La Tentation de saint Antoine, dedica-se à escrita da sua obra-prima – e obra-prima do romance moderno – Madame Bovary (1877) e finalmente escreve Bouvard et Pécuchet (1880). Esta edição Cotovia é uma tradução de Pedro Tamen.

«[Em] Flaubert, há uma ausência de estilo voluntária, uma espécie de recusa, que não é simples reproduzir em português. Por isso, o que se tornou apaixonante foi encontrar um “tom” que não resultasse vulgar, e aperfeiçoá-lo em revisões sucessivas. Encontrar um “tom” que reproduzisse o estilo seco e quase incolor que é o de Bouvard e Pécuchet
(Pedro Tamen, em entrevista ao Público)




 «Um rumor confuso subia de longe na atmosfera morna; e tudo parecia entorpecido pela ociosidade do domingo e pela tristeza dos dias de verão.
   Dois homens apareceram.
  Um vinha da Bastilha, outro do Jardim Botânico. O mais alto, vestido de algodão, caminhava de chapéu caído para trás, colete desabotoado e gravata na mão. O mais baixo, cujo corpo lhe desaparecia numa sobrecasaca castanha, vinha de cabeça baixa sob um boné de pala aguçada.
  Quando chegaram a meio do bulevar, sentaram-se ao mesmo tempo no mesmo banco.
  Para limpar a testa, tiraram os chapéus, que poisaram junto de si; e o baixinho viu escrito no chapéu do vizinho “Bouvard”, enquanto este distinguia facilmente no boné do sujeito de sobrecasaca a palavra “Pécuchet”.
  – Olha! – disse ele – tivemos a mesma ideia, de mandar gravar os nossos nomes nos chapéus.
  – Foi mesmo! É que podiam levar-me o meu no escritório!
  – Tal como a mim, sou empregado.
  Então encararam-se.»

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