quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Carta para minha mãe, de Georges Simenon

«Carta para minha mãe (1974) é, mais que um título, outra excepção que confirma a regra. Como um último espasmo de génio de alguém que se retirou da ficção romanesca. O livro escapa às normas, tanto pelo contexto quanto pelo poder evocativo. (…) É uma crónica da incompreensão através da história de dois seres que nunca conseguiram amar-se por nunca terem sabido conversar. Simenon revela-nos o nódulo do seu sofrimento, o sofrimento de um grande escritor reconhecido por todos e em toda a parte, excepto pela sua própria mãe.»

(Pierre Assouline, Simenon: biographie)




Sobre o Autor:
Georges Simenon nasceu em Liège, Bélgica (1903), e morreu em Lausana, Suíça (1989). Escritor de obra extensa e variada – cerca de 400 títulos –, desde romances “psicológicos”, contos, ensaios, escritos autobiográficos, até aos livros de aventura que publicou na juventude, sob pseudónimos diversos. Georges Sim, o mais conhecido desses pseudónimos, chegou mesmo a ser usado no seu verdadeiro primeiro romance: Au Pont des Arches (1922). É a partir de Pietr-le-Letton (1931) que assume Simenon como apelido.




Um excerto de Carta para minha mãe, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo:

«Agora, tens noventa e um anos. Eu estou quase a passar dos setenta. E, entre nós, há todo este tempo passado. Foi um tempo que te marcou? Guardaste alguma recordação das horas e dos dias?
Olhando para o teu rosto, pareces como que aliviada por veres o fim aproximar-se.
Falei do ratinho que se esgueirava de noite pelos pátios de Lakeville em busca do seu corpete. Durante toda a tua vida, os teus passos foram os passos miúdos e velozes de um ratinho. Raramente te vi sentada. E é a primeira vez, sim, a primeira vez, que te vejo deitada.
Ao olhar para o teu rosto, que mudou tão pouco, para os teus olhos claros, de um azul acinzentado, que continuam muito vivos, pergunto a mim próprio se o teu último suspiro não será um suspiro de alívio.

No teu quarto de hospital, há qualquer coisa que me oprime e que, por vezes, me impede de pensar. É o silêncio que reina, um silêncio interrompido de tempos a tempos pelo deslizar da cadeira de alguém que se vai embora, pelos passos silenciosos de alguém que entra, pelos sussurros constrangidos dos recém-chegados. Parece que se está numa igreja. Uma igreja de que és o centro e onde, embora imóvel, assumes dimensões extraordinárias.
Porque tu dominas tudo, os estranhos que entram e saem – e entre os quais talvez possa incluir-me, porque fui um estranho para ti –, a porta que alguém empurra e que alguém volta a fechar silenciosamente, e que deixa sempre entrar um pouco de ar fresco.»

2 comentários:

  1. Em Carta ao Pai, de F.Kafka, tive uma sensação de que vivi aquilo. Foi muito forte e comovente aquela Carta. Esta deve ser semelhante, pois todas as cartas de um filho ao pai ou à mãe são lamentos profundos pelo que poderia ter sido mais leve a vida deles.

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  2. Fica o convite para conhecer o Clube do Crime, página dedicada ao catálogo policial da Companhia das Letras, que está republicando a obra de Georges Simenon no Brasil!

    Site: http://www.clubedocrime.com.br/
    Facebook: https://www.facebook.com/clubedocrime

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