terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Supernova

Andava de pijama e pantufas pelo corredor da psiquiatria. Chegado à porta, dava meia-volta e regressava continuando a chorar copiosamente. Deixava aqui e ali à sua passagem pequenas poças de água salgada onde os outros pacientes patinhavam murmurando imprecações. Doses de lágrimas bem mais eficazes do que as dos anti-depressivos e anti-psicóticos que tomava diariamente. Estes engolia-os, aquelas expelia-as. Determinados psiquiatras afirmavam que se encontrava quase definitivamente curado. Tanto quanto é possível nesses casos, acrescentavam com precaução. Um psicótico não chora, fecha à chave todas as portas. Talvez já só ele tivesse pena de si próprio, talvez só ele se compadecesse da sua própria dor que derramava sem vergonha pois que era tanta, variada, e sem motivo aparente. O que era apesar de tudo um sintoma infalível da sua doença, embora em evidente remissão. Eu e tu no mesmo ser. Diriam alguns. Uma auxiliar deu-lhe uma descompostura, o senhor está a sujar o chão, ainda há pouco o lavei. Se ao menos sofresse de incontinência urinária, eu era capaz de perceber. Mas chorar assim continuamente por tudo e por nada… e por toda a parte. Por que não vai antes passear-se pelo corredor das doenças infecciosas? O senhor chora cronicamente, ao menos assoe-se de quando em vez, além das lágrimas, cai baba, ranho e o resto. O resto, julgo eu que a ouvia, seria essa tristeza, entretanto metamorfoseada em líquido, revertida em lágrimas. E baba. E ranho. O resto, éramos também nós, os outros, e o mundo, amargo ácido inóspito monótono. E cruel. Também eu por vezes mal me continha, só mesmo o orgulho me detinha.
Somos educados para nos contermos. Não gritar, não falar alto, não rir desalmadamente, não falar torrencialmente. Para chorar, há os funerais, e mesmo assim. Em criança desatei a rir num funeral. Um cortejo, uma procissão de caras sérias, de caras sem rosto, de olhos escuros sob os óculos de sol ainda que chovesse, de roupa cinzenta e negra a tresandar a naftalina, guardada para essas ocasiões particulares em que um ou outro desaparece, mas para onde? Era-me inconcebível, a morte. Ou mais exactamente, não tanto inconcebível, mas, pior ainda, não era capaz de senti-la como uma perda irreparável de um ser que ainda ontem, ainda anteontem, ainda há pouco… Se é que estivesse inteiramente vivo. Agora sim, mesmo se não sinto, concebo, mas nada me parece menos óbvio. Para as crianças, não há coisas óbvias. E quanto aos adultos, debatem-se e afundam-se num mar de obviedades intragáveis. Chegara eu à maturidade desprovida de tal insensatez. Impoluta.
O paciente lavado em lágrimas… Quando finalmente conseguiu matar-se, houvera tentado antes por várias vezes e falhara sempre, disseram que era a única coisa sensata que poderia fazer, que lhe restava fazer, o gesto de um homem livre e consciente. Eu e eu. Nunca mais adoeceria. Nunca mais desejaria morrer. De remissão em remissão tinha alcançado a sanidade total. Estava morto, é certo. Mas são. São. Era um exemplo de sucesso terapêutico citado nos compêndios e estudado com afinco. Recuperara a propriedade do seu nome, dos seus pronomes. Pessoais, reflexos, possessivos.
E transportou a sua terrena tristeza para a eternidade. Sim, porque tanto quanto julgo saber, no paraíso, que é para onde vão necessariamente todas as criaturas humanas que sofreram sem o merecerem, apesar do conforto, da temperatura aprazível e das outras milhentas amenidades, há muitas delas que não param de chorar. Há quem diga que mesmo deus chora abundantemente. É por isso que a maior parte da terra está coberta por oceanos. Qual é a percentagem? 70%? Por aí.
Pois bem, portanto, também ele desapareceu. Mas juro que durante o sono soam-me no cérebro as suas lágrimas caindo como sinos tresloucados badalando sem cessar e acordo em pânico rangendo os dentes empapada em suor e sal. Tiritando como uma supernova que cintila.
        
Bénédicte Houart    

1 comentário:

  1. Bom dia

    Queria algumas informações sobre San Juan de la Cruz e vim ter ao seu blogue. :)

    O tema deste post, 'supernova', lembra-nos a nossa condição humana, tão frágeis que somos, e também as regras que a sociedade nos impõe indo, tantas vezes, contra essa mesma condição.

    Obrigada.

    Olinda

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