segunda-feira, 30 de abril de 2012

Livrinho de teatro nº 62



O livrinho de teatro mais recente já está disponível na nossa loja online, na livraria da Cotovia na Rua Nova da Trindade e na Feira do Livro de Lisboa.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A garrafa


 a joão guimarães rosa

Chamo-me emília. Emília de apelido mouca. De mim ninguém se recordaria não fora a garrafa. A casa na praça central da vila há muito ruiu. Já não a habito porque descobri mais vasta terra. Se é que lá morei, foi há tanto tempo, permito-me duvidar. A garrafa, essa, permanece intacta. Guardou-a alguém como relíquia. Do diabo em quem já pouca gente acredita. Pois eu digo: existe. E age. Embora seja quase impossível destrinçar os seus fazeres dos de deus pai. Que o mal a um qualquer bem aparece sempre unido.
Endiabrada fui-o como todas as crianças, única rapariga entre rapazes, emília, tem-te quieta, e eu dizendo sim, fazendo não. Valeram-me os livros, emília, tem-te quieta, e eu de colo ocupado por um, por outro, por vários, de abdómen inchando, nunca pari, nunca deles me desfiz. Decorreram os anos no silêncio palpável de palavras de que cuidei como se crias minhas. Se ninguém as via crescendo, rebentando de vida, defeito dos seus olhos ineptos.
Era uma garrafa de vidro transparente. Água mineral com gás. Bebi-a primeiro para a digestão, como cada dia. Sorvi-a depois para a congestão, como nunca, arfando, suando, desmaiando breve. Ninguém me ouviu, escutei-me eu auscultando-me, e soube assim que o espaço no profundo interior de mim era maior do que todas as propriedades da minha família. Dizem que a água não sabe a nada. Sabe a si própria, o que já não é pouco, considerando que a maior parte das coisas que fazemos são mera repetição de gestos realizados por antepassados, presentes como um exército inimigo lutando corpo a corpo connosco dentro de nós. Sobretudo os nossos sentimentos. Soam canhões, tiros, facas afiadas retalham-nos os órgãos, dividem-nos o ser, corroem-nos os tecidos. Entranham-se-nos nos ossos intrusos odiados, ou, se não, pelos quais, com os anos, só a raiva e o ressentimento se multiplicam dando-nos a ilusão de estarmos vivos quando já fomos derrotados e nos limitamos a apodrecer pouco a pouco, sendo a morte apenas a confirmação desse luto perpétuo de que interiormente nos trajamos. Os outros, que eu não. E mesmo se eu também, e talvez também eu, que importa.
Porquê essa e não outra? Porquê nesse dia e não noutro? É curioso como as pessoas fazem as coisas mais corriqueiras instantes antes de empreenderem aquilo que há-de persegui-las até ao fim. Às vezes, é o próprio fim que empreendem. E, de certo modo, tudo o mais é também o fim de alguma coisa e o princípio de outra, irreversível. Embora raramente nos apercebamos disso. De que houve um antes e um depois, de que dependeu de nós traçar o limite, tanto mais involuntariamente. De que a mudança, após ter ocorrido, é irreversível. Tão poucas são as coisas que premeditamos, convencemo-nos disso depois. A garrafa, por exemplo. Porquê essa e não outra? Porquê nesse dia e não noutro? Não sei. Poderia tentar compreendê-lo.
Quando era criança vi o mar algumas vezes na figueira da foz. Chapinhei, esbracejei, tremi de frio, arrepiei-me de calor, já então protegida por lenços e chapéus por causa das otites que iriam tornar-me surda anos mais tarde. Com dezoito anos aventurava-me mar adentro terra afora, e entendi enfim que as águas que contemplava eram o reflexo majestoso daquelas que corriam inquietas dentro de mim. Boiava, sobrenadava, a barriga inchada de tanto engolir e guardar mundo. Um imenso amor a nenhum destinado. De modo que regressei à terra mudada, definitivamente alterada, ninguém reparou, aprendera entretanto a passar despercebida para sentir melhor. À janela sentada, bordava toalhas e naperons para os meus sobrinhos. As minhas mãos aquietavam-se por umas horas. Os meus olhos apiedavam-se da pobreza triste que grassava na vila. Chamavam-me menina emília muito prendada, que pena ser surda e feia. Emília de apelido mouca. Apresentaram-me dois ou três pretendentes, afinal a riqueza pesava mais do que a beleza de boca em boca sussurrada inexistente, a não ser aos meus olhos vivalmas, às minhas mãos que reconheciam neste meu um corpo fértil, firme, tenso, quem o bem palpasse quanta beleza encarnada. Repeli-os a todos, sob a delicadeza mal estudada eram uns brutos. Cri em deus quando o que queria era um homem sem chagas. Ía à missa desfolhar o missal, as palavras do padre não as ouvia, adivinhava-as cada dia parecidas, senão iguais, ora um funeral ora um baptizado, ora ou ora, os seus lábios esboçavam os mesmos sons, as orações devidas suspirava-as eu ao deitar aconchegando ao peito cheio os lençóis de alfazema aromatizados. Um bruto qualquer ter-me-ia bastado, admiti-o depois, mas por quanto tempo? Um bruto qualquer algumas vezes por semana para sossego da minha carne salgada. Um bruto qualquer que me desentranhasse.
Os serões passava-os a ler e ler e ler tudo quanto existia na biblioteca do meu pai, anos depois já todos tinham abandonado a casa, restava eu com esse imenso amor sem uma só única ruga. Foi por isso que conheci o menino. Observava os livros como eu antigamente, percebi logo. Passou a vir várias vezes por semana. Trazia um livro, levava outro. Lia sofregamente, dilatando-se destemido. Enquanto eu, agora, abria um, folheava-o, abria outro, folheava-o, mas os meus olhos detinham-se antes nas minhas mãos entregues a si próprias, envelhecendo mais depressa do que o tempo. O coração jovem, prematuro desde o início e ainda e sempre, preparado para amar, disposto a dar. Até ao dia da garrafa.
O menino deixou de aparecer. Tão prendada, tão tresloucada, temiam que o maltratasse, que o tivesse maltratado, clamavam já anda com umas ideias esquisitas metidas na cabeça, espalhafatosas de extravagâncias, esse menino, foi de certeza aquela velha de apelido mouca. Antes me cortassem uma mão. E de certo modo foi assim. Corri as persianas, recolhi-me dentro de casa, sobrava-me o quintal nas traseiras, e mesmo assim certos dias choviam pedras e sacos de lixo, gargalhadas como gargalos de garrafa cravados no peito que escorregava descaindo, que tropeçava no tempo. Ou na vida. Ou na vida. Nunca me queixei. Era seria assim, diziam, eu bem sabia que não, que nunca. Que fora assim, era-o, fora-o. Mas não como falavam, como cuspiam condenando, perpetuando.
Um dia, porquê esse e não outro, porquê assim e não de outro modo, poderia tentar compreendê-lo, mas que importa, deitei-me na banheira, não abri a torneira, abri as pernas, isso sim, e fiz força, o mais que pude, já não podia muito, as ancas estalando, requebrando-se, foi o bastante, desemprenhado finalmente este corpo magro escanzelado que apenas eu e como desejara. Esperei que as minhas águas se soltassem e ao meu sangue escorrendo se misturassem. Adormeci boiando, sobrenadando. Entendi de repente que também o mar de outrora era já rosa carmim. Eternamente sê-lo-ia. Adormeci consolada nessa certeza espessa.
Chamo-me emília e não morri. A minha alma é uma mulher nua que vai e vem, jaz e jorra, torna e transtorna. Aqui.

                Bénédicte Houart   

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A troika e A curva


Não sei bem porquê mas esta troika traz-me de tempos adolescentes, numa paisagem que o tempo tornou difusa, em imagens agora renovadas, A curva, de Tankred Dorst. Se bem me lembro, o espectáculo, encenado pelo Fernando Gusmão – um encenador com cabeça e culto -apresentava-se no Cinema Dicca, na então Lourenço Marques (magnífica Maputo hoje, nome de rio e reserva de elefantes, de volta com o fim da guerra, como na Gorongosa).
Um cangalheiro monta o seu estaminé numa curva providencial e claro, o negócio só poderia correr de vento-em-popa, à velocidade da morte na estrada, indústria de alta produtividade e constante – em Olinda, no Nordeste do Brasil, há uma Avenida inteira de funerárias cujos caixões, iluminados a amarelo, verde e vermelho, carnaval de alegria a estalar nas noites, estão dispostos ao alto, favorecendo ao primeiro olhar uma decisão sobre o tamanho necessário e ao mesmo tempo criando uma paisagem invulgar de esquifes erectos, paisagem ritual, ao alto como o bípede que somos.
Com as nossas taxas de sinistralidade, que nos faziam ler a peça numa base dramatúrgica nacional, resultado da convergência de muitos talentos de espontaneidade genética e condição ruminante, a empresa de encaixotar mortos certos numa base estatística rendível não poderia ter melhor sede que a curva fatídica. Em boa verdade as convergências podem ser assassinas e a culpa morrer sempre solteira, porque o casamento desses talentos negativos como razão do fenómeno da sinistralidade situa e identifica, no nosso caso, a problemática das causas numa criatura de várias caras, algo monstruosa, ser plural incoerente, que vai do fulano que desenhou a curva com o relevé invertido ao que roubou no cimento e alcatrão, passando pelo fiscal comprado e acabando no condutor sem unhas para a velocidade do jipe four by four, que poderá até ter ingerido uma qualquer bebida da moda para estimular adrenalinas e, por essa razão, de algum modo, atingir um objectivo ao estampar-se. Falta juntar que no caso desta curva, num cenário necessariamente elementar, um sinal de trânsito falso ajudava ao negócio de modo armadilhado. O cangalheiro era absolutamente competente e não só apanhava a boleia das incompetências genético-identificáveis, o fado sabido, como não agia sobre a improbabilidade do risco. Naquela curva mais de 90% dos condutores, melhor seria dizer gira-volantes, estampava-se directamente para o preço do caixão. Os outros dez por cento eram multados ao pisar o traço contínuo, bem-posto tal como o relevé.
E é o que me parece esta troika, uma equipa de cangalheiros instalada numa cómoda curva, bem pagos por salários milionários e outras “ajudas de custo”, beneficiando directamente com o que nos roubam, ladrões diplomados que são, fortunas salariais que ninguém denuncia como se estes troikanos fossem de uma neutralidade competente intocável e falassem a linguagem do rigor absoluto e essa não tivesse preço, enquanto por cá falamos a linguagem do “mais ou menos assim”, do “talvez lá se chegue”, mesmo do “queira Deus”, para não referir o caso recente de três governantes que dizem ter fé que o desemprego baixe, que chova e que a economia venha a crescer.
Porque bem vistas as coisas esta Tróika aplica esta receita em qualquer lado, pelo que monta o estaminé em qualquer curva e em qualquer curva tem resultados seguros – é assim há muitos anos com a destruição de países e de economias, reduzindo-os à servitude ao serviço das potências imperiais. Portugal está numa curva apertada e vai-se espalhando a cada índice económico revelado a caminho da salvação e isso é obviamente o resultado da estratégia da desqualificação dos serviços públicos e do enriquecimento forçado e exponencial dos privados, um saque, como se sabe típico modo das acumulações primitivas de capital – já não basta a exploração regulada, agora é mesmo um saque, como os exércitos vitoriosos procediam para com os vencidos, excepção feita do que Ésquilo, um grego, escreveu em Os Persas, um poema sobre a dignidade dos vencidos.
Quanto menos serviços públicos mais vida aleatória, menos camas nas urgências mais mortos, quanto menos urgências com médicos, mais mortos, quantos menos tribunais, mais injustiças, menos transportes públicos menos produtividade, mais engarrafamentos, menos investimento público crescimento negativo, mais caridade muito mais pobreza, mais pobreza mais crime, mais crime mais pobreza, menos saúde mais mortalidade. Está tudo certo: vamos a caminho do progresso, da modernidade e de outros horizontes outrora bem fadados na boa propaganda. A nossa curva é mesmo melhor que a grega, dizem patriotas institucionais e especialistas. A curva dos gregos tem muita cultura clássica no relevé, a nossa apesar de tudo tem alguma areia, mesmo que o alcatrão seja pouco. Estradas obesas para quê?

Fernando Mora Ramos, encenador e actor, frequentou o Conservatório Nacional e fez uma Maitrise  em Estudos Teatrais em Paris III, Censier/Sorbonne Nouvelle. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian estagiou com Giorgio Strehler no Piccolo Teatro de Milão. Tendo trabalhado em inúmeras companhias, encenou textos de Beckett, Tabori, Bernhard, Pirandello, Barker, Danan, Sarrazac e de muitos contemporâneos além dos clássicos, Vicente, Molière, Marivaux e Goldoni. Tem escrito sobre teatro e política cultural no jornal Público.
Actualmente dirige o Teatro da Rainha, que fundou em 1985.
Como ensaísta e tradutor, colaborou na edição de Quatro Ensaios À Boca de Cena (Cotovia, 2009) e Peças Escolhidas, vol. III, de Carlo Goldoni (Cotovia, 2011)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Versos que lembram – Sá de Miranda




                No antigo curso complementar dos liceus estudei Sá de Miranda. Era meu professor o Dr. FCM, pessoa certamente competente, mas sem rasgo, com o qual não se aprendia senão o que o programa mandava — e o programa não mandava penetrar nos fundões da beleza da literatura. Faço-me entender?
                Por isso, só mais tarde, ao reler Sá de Miranda, percebi que estava ali mais do que um simples renovador — o que já não era coisa pouca —, que tornou obsoletas as formas poéticas medievais e mostrou a Portugal as sonoridades métricas inovadoras do dolce stil nuovo. Percebi então que estava ali um poeta. Pelo menos, poeta até ao umbigo, os baixos prosa, como o sintetizou um tal Diogo de Sousa, vate satírico do séc. XVII.
                E a esse poeta inesperado perdoei até algumas irregularidades de rima e medida, em nome das imagens de que o via capaz de quando em quando. Perdoei-lhe por exemplo o espúrio ‘mudaves’ por ‘mudáveis’, que o poeta torceu para rimar com ‘aves’, etc., no célebre soneto “O sol é grande”. A simples aposição, no primeiro verso do soneto, do banal adjectivo ‘grande’ ao substantivo ‘sol’ me pareceu então um arrojo de simplicidade, e não uma limitação, da musa de Sá de Miranda.
                Vários versos de Sá de Miranda me lembram de quando em quando. Alguns da “Carta a António Pereira, senhor de Basto”, por exemplo. Mas nenhuns com tanta frequência como os dois primeiros da segunda quadra do soneto “Assi que me mandáveis atrever”. Neles, nesses simples dois versos, o poeta resume todo um preceito de arte poética, que preconiza o aturado trabalho de lima que a poesia, a seu (e meu) ver, requer. E fá-lo, ainda por cima, usando uma comparação imprevista, como só grandes poetas sabem ou podem fazer. Nessa comparação, o poeta é nada menos que uma ursa, os versos são as crias disformes desta. E tal como as ursas lambem incessantemente os filhos, os poetas incessantemente burilam os seus versos.
                Aí vão os dois versos que tanto me dão no goto:

                Os meus, se nunca acabo de os lamber,
                Como ussa os filhos mal proporcionados […]

                É de poeta!


A.M. Pires Cabral