terça-feira, 17 de abril de 2012

A garrafa


 a joão guimarães rosa

Chamo-me emília. Emília de apelido mouca. De mim ninguém se recordaria não fora a garrafa. A casa na praça central da vila há muito ruiu. Já não a habito porque descobri mais vasta terra. Se é que lá morei, foi há tanto tempo, permito-me duvidar. A garrafa, essa, permanece intacta. Guardou-a alguém como relíquia. Do diabo em quem já pouca gente acredita. Pois eu digo: existe. E age. Embora seja quase impossível destrinçar os seus fazeres dos de deus pai. Que o mal a um qualquer bem aparece sempre unido.
Endiabrada fui-o como todas as crianças, única rapariga entre rapazes, emília, tem-te quieta, e eu dizendo sim, fazendo não. Valeram-me os livros, emília, tem-te quieta, e eu de colo ocupado por um, por outro, por vários, de abdómen inchando, nunca pari, nunca deles me desfiz. Decorreram os anos no silêncio palpável de palavras de que cuidei como se crias minhas. Se ninguém as via crescendo, rebentando de vida, defeito dos seus olhos ineptos.
Era uma garrafa de vidro transparente. Água mineral com gás. Bebi-a primeiro para a digestão, como cada dia. Sorvi-a depois para a congestão, como nunca, arfando, suando, desmaiando breve. Ninguém me ouviu, escutei-me eu auscultando-me, e soube assim que o espaço no profundo interior de mim era maior do que todas as propriedades da minha família. Dizem que a água não sabe a nada. Sabe a si própria, o que já não é pouco, considerando que a maior parte das coisas que fazemos são mera repetição de gestos realizados por antepassados, presentes como um exército inimigo lutando corpo a corpo connosco dentro de nós. Sobretudo os nossos sentimentos. Soam canhões, tiros, facas afiadas retalham-nos os órgãos, dividem-nos o ser, corroem-nos os tecidos. Entranham-se-nos nos ossos intrusos odiados, ou, se não, pelos quais, com os anos, só a raiva e o ressentimento se multiplicam dando-nos a ilusão de estarmos vivos quando já fomos derrotados e nos limitamos a apodrecer pouco a pouco, sendo a morte apenas a confirmação desse luto perpétuo de que interiormente nos trajamos. Os outros, que eu não. E mesmo se eu também, e talvez também eu, que importa.
Porquê essa e não outra? Porquê nesse dia e não noutro? É curioso como as pessoas fazem as coisas mais corriqueiras instantes antes de empreenderem aquilo que há-de persegui-las até ao fim. Às vezes, é o próprio fim que empreendem. E, de certo modo, tudo o mais é também o fim de alguma coisa e o princípio de outra, irreversível. Embora raramente nos apercebamos disso. De que houve um antes e um depois, de que dependeu de nós traçar o limite, tanto mais involuntariamente. De que a mudança, após ter ocorrido, é irreversível. Tão poucas são as coisas que premeditamos, convencemo-nos disso depois. A garrafa, por exemplo. Porquê essa e não outra? Porquê nesse dia e não noutro? Não sei. Poderia tentar compreendê-lo.
Quando era criança vi o mar algumas vezes na figueira da foz. Chapinhei, esbracejei, tremi de frio, arrepiei-me de calor, já então protegida por lenços e chapéus por causa das otites que iriam tornar-me surda anos mais tarde. Com dezoito anos aventurava-me mar adentro terra afora, e entendi enfim que as águas que contemplava eram o reflexo majestoso daquelas que corriam inquietas dentro de mim. Boiava, sobrenadava, a barriga inchada de tanto engolir e guardar mundo. Um imenso amor a nenhum destinado. De modo que regressei à terra mudada, definitivamente alterada, ninguém reparou, aprendera entretanto a passar despercebida para sentir melhor. À janela sentada, bordava toalhas e naperons para os meus sobrinhos. As minhas mãos aquietavam-se por umas horas. Os meus olhos apiedavam-se da pobreza triste que grassava na vila. Chamavam-me menina emília muito prendada, que pena ser surda e feia. Emília de apelido mouca. Apresentaram-me dois ou três pretendentes, afinal a riqueza pesava mais do que a beleza de boca em boca sussurrada inexistente, a não ser aos meus olhos vivalmas, às minhas mãos que reconheciam neste meu um corpo fértil, firme, tenso, quem o bem palpasse quanta beleza encarnada. Repeli-os a todos, sob a delicadeza mal estudada eram uns brutos. Cri em deus quando o que queria era um homem sem chagas. Ía à missa desfolhar o missal, as palavras do padre não as ouvia, adivinhava-as cada dia parecidas, senão iguais, ora um funeral ora um baptizado, ora ou ora, os seus lábios esboçavam os mesmos sons, as orações devidas suspirava-as eu ao deitar aconchegando ao peito cheio os lençóis de alfazema aromatizados. Um bruto qualquer ter-me-ia bastado, admiti-o depois, mas por quanto tempo? Um bruto qualquer algumas vezes por semana para sossego da minha carne salgada. Um bruto qualquer que me desentranhasse.
Os serões passava-os a ler e ler e ler tudo quanto existia na biblioteca do meu pai, anos depois já todos tinham abandonado a casa, restava eu com esse imenso amor sem uma só única ruga. Foi por isso que conheci o menino. Observava os livros como eu antigamente, percebi logo. Passou a vir várias vezes por semana. Trazia um livro, levava outro. Lia sofregamente, dilatando-se destemido. Enquanto eu, agora, abria um, folheava-o, abria outro, folheava-o, mas os meus olhos detinham-se antes nas minhas mãos entregues a si próprias, envelhecendo mais depressa do que o tempo. O coração jovem, prematuro desde o início e ainda e sempre, preparado para amar, disposto a dar. Até ao dia da garrafa.
O menino deixou de aparecer. Tão prendada, tão tresloucada, temiam que o maltratasse, que o tivesse maltratado, clamavam já anda com umas ideias esquisitas metidas na cabeça, espalhafatosas de extravagâncias, esse menino, foi de certeza aquela velha de apelido mouca. Antes me cortassem uma mão. E de certo modo foi assim. Corri as persianas, recolhi-me dentro de casa, sobrava-me o quintal nas traseiras, e mesmo assim certos dias choviam pedras e sacos de lixo, gargalhadas como gargalos de garrafa cravados no peito que escorregava descaindo, que tropeçava no tempo. Ou na vida. Ou na vida. Nunca me queixei. Era seria assim, diziam, eu bem sabia que não, que nunca. Que fora assim, era-o, fora-o. Mas não como falavam, como cuspiam condenando, perpetuando.
Um dia, porquê esse e não outro, porquê assim e não de outro modo, poderia tentar compreendê-lo, mas que importa, deitei-me na banheira, não abri a torneira, abri as pernas, isso sim, e fiz força, o mais que pude, já não podia muito, as ancas estalando, requebrando-se, foi o bastante, desemprenhado finalmente este corpo magro escanzelado que apenas eu e como desejara. Esperei que as minhas águas se soltassem e ao meu sangue escorrendo se misturassem. Adormeci boiando, sobrenadando. Entendi de repente que também o mar de outrora era já rosa carmim. Eternamente sê-lo-ia. Adormeci consolada nessa certeza espessa.
Chamo-me emília e não morri. A minha alma é uma mulher nua que vai e vem, jaz e jorra, torna e transtorna. Aqui.

                Bénédicte Houart   

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