terça-feira, 10 de abril de 2012

Versos que lembram – Sá de Miranda




                No antigo curso complementar dos liceus estudei Sá de Miranda. Era meu professor o Dr. FCM, pessoa certamente competente, mas sem rasgo, com o qual não se aprendia senão o que o programa mandava — e o programa não mandava penetrar nos fundões da beleza da literatura. Faço-me entender?
                Por isso, só mais tarde, ao reler Sá de Miranda, percebi que estava ali mais do que um simples renovador — o que já não era coisa pouca —, que tornou obsoletas as formas poéticas medievais e mostrou a Portugal as sonoridades métricas inovadoras do dolce stil nuovo. Percebi então que estava ali um poeta. Pelo menos, poeta até ao umbigo, os baixos prosa, como o sintetizou um tal Diogo de Sousa, vate satírico do séc. XVII.
                E a esse poeta inesperado perdoei até algumas irregularidades de rima e medida, em nome das imagens de que o via capaz de quando em quando. Perdoei-lhe por exemplo o espúrio ‘mudaves’ por ‘mudáveis’, que o poeta torceu para rimar com ‘aves’, etc., no célebre soneto “O sol é grande”. A simples aposição, no primeiro verso do soneto, do banal adjectivo ‘grande’ ao substantivo ‘sol’ me pareceu então um arrojo de simplicidade, e não uma limitação, da musa de Sá de Miranda.
                Vários versos de Sá de Miranda me lembram de quando em quando. Alguns da “Carta a António Pereira, senhor de Basto”, por exemplo. Mas nenhuns com tanta frequência como os dois primeiros da segunda quadra do soneto “Assi que me mandáveis atrever”. Neles, nesses simples dois versos, o poeta resume todo um preceito de arte poética, que preconiza o aturado trabalho de lima que a poesia, a seu (e meu) ver, requer. E fá-lo, ainda por cima, usando uma comparação imprevista, como só grandes poetas sabem ou podem fazer. Nessa comparação, o poeta é nada menos que uma ursa, os versos são as crias disformes desta. E tal como as ursas lambem incessantemente os filhos, os poetas incessantemente burilam os seus versos.
                Aí vão os dois versos que tanto me dão no goto:

                Os meus, se nunca acabo de os lamber,
                Como ussa os filhos mal proporcionados […]

                É de poeta!


A.M. Pires Cabral

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