quinta-feira, 12 de abril de 2012

A troika e A curva


Não sei bem porquê mas esta troika traz-me de tempos adolescentes, numa paisagem que o tempo tornou difusa, em imagens agora renovadas, A curva, de Tankred Dorst. Se bem me lembro, o espectáculo, encenado pelo Fernando Gusmão – um encenador com cabeça e culto -apresentava-se no Cinema Dicca, na então Lourenço Marques (magnífica Maputo hoje, nome de rio e reserva de elefantes, de volta com o fim da guerra, como na Gorongosa).
Um cangalheiro monta o seu estaminé numa curva providencial e claro, o negócio só poderia correr de vento-em-popa, à velocidade da morte na estrada, indústria de alta produtividade e constante – em Olinda, no Nordeste do Brasil, há uma Avenida inteira de funerárias cujos caixões, iluminados a amarelo, verde e vermelho, carnaval de alegria a estalar nas noites, estão dispostos ao alto, favorecendo ao primeiro olhar uma decisão sobre o tamanho necessário e ao mesmo tempo criando uma paisagem invulgar de esquifes erectos, paisagem ritual, ao alto como o bípede que somos.
Com as nossas taxas de sinistralidade, que nos faziam ler a peça numa base dramatúrgica nacional, resultado da convergência de muitos talentos de espontaneidade genética e condição ruminante, a empresa de encaixotar mortos certos numa base estatística rendível não poderia ter melhor sede que a curva fatídica. Em boa verdade as convergências podem ser assassinas e a culpa morrer sempre solteira, porque o casamento desses talentos negativos como razão do fenómeno da sinistralidade situa e identifica, no nosso caso, a problemática das causas numa criatura de várias caras, algo monstruosa, ser plural incoerente, que vai do fulano que desenhou a curva com o relevé invertido ao que roubou no cimento e alcatrão, passando pelo fiscal comprado e acabando no condutor sem unhas para a velocidade do jipe four by four, que poderá até ter ingerido uma qualquer bebida da moda para estimular adrenalinas e, por essa razão, de algum modo, atingir um objectivo ao estampar-se. Falta juntar que no caso desta curva, num cenário necessariamente elementar, um sinal de trânsito falso ajudava ao negócio de modo armadilhado. O cangalheiro era absolutamente competente e não só apanhava a boleia das incompetências genético-identificáveis, o fado sabido, como não agia sobre a improbabilidade do risco. Naquela curva mais de 90% dos condutores, melhor seria dizer gira-volantes, estampava-se directamente para o preço do caixão. Os outros dez por cento eram multados ao pisar o traço contínuo, bem-posto tal como o relevé.
E é o que me parece esta troika, uma equipa de cangalheiros instalada numa cómoda curva, bem pagos por salários milionários e outras “ajudas de custo”, beneficiando directamente com o que nos roubam, ladrões diplomados que são, fortunas salariais que ninguém denuncia como se estes troikanos fossem de uma neutralidade competente intocável e falassem a linguagem do rigor absoluto e essa não tivesse preço, enquanto por cá falamos a linguagem do “mais ou menos assim”, do “talvez lá se chegue”, mesmo do “queira Deus”, para não referir o caso recente de três governantes que dizem ter fé que o desemprego baixe, que chova e que a economia venha a crescer.
Porque bem vistas as coisas esta Tróika aplica esta receita em qualquer lado, pelo que monta o estaminé em qualquer curva e em qualquer curva tem resultados seguros – é assim há muitos anos com a destruição de países e de economias, reduzindo-os à servitude ao serviço das potências imperiais. Portugal está numa curva apertada e vai-se espalhando a cada índice económico revelado a caminho da salvação e isso é obviamente o resultado da estratégia da desqualificação dos serviços públicos e do enriquecimento forçado e exponencial dos privados, um saque, como se sabe típico modo das acumulações primitivas de capital – já não basta a exploração regulada, agora é mesmo um saque, como os exércitos vitoriosos procediam para com os vencidos, excepção feita do que Ésquilo, um grego, escreveu em Os Persas, um poema sobre a dignidade dos vencidos.
Quanto menos serviços públicos mais vida aleatória, menos camas nas urgências mais mortos, quanto menos urgências com médicos, mais mortos, quantos menos tribunais, mais injustiças, menos transportes públicos menos produtividade, mais engarrafamentos, menos investimento público crescimento negativo, mais caridade muito mais pobreza, mais pobreza mais crime, mais crime mais pobreza, menos saúde mais mortalidade. Está tudo certo: vamos a caminho do progresso, da modernidade e de outros horizontes outrora bem fadados na boa propaganda. A nossa curva é mesmo melhor que a grega, dizem patriotas institucionais e especialistas. A curva dos gregos tem muita cultura clássica no relevé, a nossa apesar de tudo tem alguma areia, mesmo que o alcatrão seja pouco. Estradas obesas para quê?

Fernando Mora Ramos, encenador e actor, frequentou o Conservatório Nacional e fez uma Maitrise  em Estudos Teatrais em Paris III, Censier/Sorbonne Nouvelle. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian estagiou com Giorgio Strehler no Piccolo Teatro de Milão. Tendo trabalhado em inúmeras companhias, encenou textos de Beckett, Tabori, Bernhard, Pirandello, Barker, Danan, Sarrazac e de muitos contemporâneos além dos clássicos, Vicente, Molière, Marivaux e Goldoni. Tem escrito sobre teatro e política cultural no jornal Público.
Actualmente dirige o Teatro da Rainha, que fundou em 1985.
Como ensaísta e tradutor, colaborou na edição de Quatro Ensaios À Boca de Cena (Cotovia, 2009) e Peças Escolhidas, vol. III, de Carlo Goldoni (Cotovia, 2011)

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