terça-feira, 2 de outubro de 2012

Livrinho de Teatro nº 65 - peças de Nathalie Sarraute



De Nathalie Sarraute

Tradução de Diogo Dória, Jorge Silva Melo e Pedro Tamen

 
Edição apoiada pelo Programa de Ajuda à Publicação do Institut Français/ Ministério Francês dos Negócios Estrangeiros e Europeus
Uma edição Artistas Unidos/ Livros Cotovia

PVP 7 Euros




Nos Livrinhos de Teatro dos Artistas Unidos foram já publicadas peças de Spiro Scimone, Antonio Onetti, Juan Mayorga, Irmãos Presniakov, Jon Fosse, Joe Orton, José Maria Vieira Mendes, Jean-Luc Lagarce, Letizia Russo, Antonio Tarantino, Nuno Júdice, Miguel Castro Caldas, Pasolini, Dimítris Dimitriádis, Benet i Jornet, Werner Schwab, Peter Asmussen, Anthony Neilson, Lula Anagnostaki, Tim Crouch, Dea Loher, Gregory Burke, Pirandello, Enda Walsh, Jenny Schwartz, David Greig, Copi, Genet, K. Valentin, Angélica Liddell, Lluïsa Cunillé, David Lescot, Pau Miró, René Pollesch, Eduardo de Filippo, Pirandello, Valle-Inclán, Karl Valentin, JM Synge.
 

O Silêncio

Seis personagens não podem desenvolver um diálogo nornal por causa do silêncio de uma sétima.

Mulher 2      Porque ainda agora…


Homem 1        Ainda agora o quê?


Mulher 2      Bom, tu próprio...


Homem 1        Eu próprio o quê?


Mulher 3      O silêncio dele…


Homem 1        Mas qual silêncio?


O Silêncio, Nathalie Sarraute

É Bonito

Um pai e uma mãe dividem-se sobre o olho irónico do seu filho. A culpa parental assume neste texto proporções enormes. Mas a farsa da linguagem esconde o drama da incomunicabilidade, do diálogo como luta, da linguagem como traição.


Ela     O que não impede que às tantas tenhas hesitado. Também tiveste medo, confessa lá…

Ele     Medo? Eu? Estás a sonhar…

Ela     Só te fica bem… Quem não tem medo… Mas tu, eu vi… há bocado, quando ele te desafiou… quando te exaltaste… esmifraste-te…

Ele     Ah, isso não. Nem um bocadinho. Eu disse-lhe, gritei-lhe: É bonito. Bonito. Bonito. Bonito…

É Bonito, Nathalie Sarraute


Aqui está Ela

História de uma obsessão. A obsessão é, bem como a linguagem, um dos temas recorrentes de Sarraute.

Homem 2        Olhe, tenho que lhe dizer… Preciso de falar consigo…


Mulher         Sim? Sobre o quê?


Homem 2        É uma parvoíce… é muito difícil… Não sei como… Por onde começar.


Mulher         Diga lá, diga lá. Que fiz eu desta vez?


H.2      Oh, nada. Nada. Nada, precisamente, não fez nada. Não disse nada. Ficou calada…


Mulher         Devia ter falado?


H.2      Sim, mais valia…


Aqui Está Ela, Nathalie Sarraute

Por Tudo e Por Nada

Dois homens confrontam-se, dois amigos discutem talvez por tudo e por nada. A tensão que existe nas palavras mais simples, os movimentos físicos e psicológicos dão ao leitor uma sensação de mal-estar, mas fascinam ao mesmo tempo.

Homem 2        “E que tomem cuidado... que prestem muita atenção... são bem conhecidas as penas em que incorrem aqueles que têm o desleixo de se permitirem assim, sem razão... Ficarão marcados... Só com prudência é que nos aproximaremos deles, com a maior das desconfianças... Toda a gente saberá de que é que eles são capazes, de que é que podem ser culpados: podem cortar relações por tudo e por nada.”

Homem 1        Por tudo... e por nada? (Silêncio.)

Homem 2        Tudo e nada?

Homem 1        Realmente não são a mesma coisa...

Homem 2        Realmente: tudo. Ou nada.

Homem 1        Tudo.

Homem 2        Nada!

Por Tudo e Por Nada, Nathalie Sarraute

 

NATHALIE SARRAUTE, de seu nome verdadeiro Natalyia Tcherniak, nasceu em Ivanovo (perto de Moscovo), na Rússia, a 18 de Julho de 1900, numa família letrada da burguesia judia. Após o divórcio dos pais, a mãe leva-a para Paris, onde frequenta a primária. Irá partilhar a infância entre Paris e São Petersburgo. Tem uma educação cosmopolita, estuda inglês e história em Oxford, sociologia em Berlim e finalmente direito em Paris. Em1925, casa com Raymond Sarraute, colega de faculdade. Exerce a profissão de advogada até ser afastada dos tribunais em 1941, pelas leis nazis. Em 1932, escreveu o seu primeiro livro, a recolha de curtas narrativas que intitulou Tropismes, obra que veio a ser muito elogiada por Max Jacob e Jean-Paul Sartre, aquando da sua publicação, em 1939. Será Sartre quem, em 1947, irá prefaciar o seu Portrait d'un inconnu, lançando com ele a tese do “anti-romance”. Mas é com a publicação de Martereau  em 1953 que começa o seu reconhecimento, associado à prestigiosa Gallimard  que será sempre a sua editora. Em 1956, publica o ensaio A Era da Suspeita, texto fundamental na renovação que veio a ser operada no romance.   E continua a publicar obras como Planétarium (1959), Entre la vie et la mort (1968), Vous les entendez (1972), Disent les imbéciles (1976), L'Usage de la parole (1980), Enfance (1983), Tu ne t'aimes pas (1989), Ici (1995), Ouvrez (1997). Em 1963, foi-lhe atribuído o Prix international de littérature pelo romance Les Fruits d´Or. E é neste ano, por insistência de uma rádio alemã, a Süddeutscher Rundfunk, que, Sarraute inicia a sua obra teatral com Le Silence. A que se segue Le Mensonge (1966), As duas peças inauguram, em 1967, o Petit Odéon, com direcção de Jean-Louis Barrault. Seguem-se Isma em 1970, C'est beau em 1975,   Elle est là em 1980 ,   e finalmente Pour un oui ou pour un non, em 1986. Morreu aos 99 anos quando escrevia um novo texto para teatro. Sobre o seu teatro, disse Nathalie Sarrraute: "As personagens começaram a dizer coisas que normalmente não são ditas. O diálogo deixou a superfície, desceu e instalou-se no patamar dos movimentos interiores que são a substância dos meus romances, instalou-se no pré-diálogo. Mas é preciso que a sensação, o que se sente, sejam imediatos, trazidos por palavras comuns. Creio que para os espectadores a quem me dirijo, este contraste entre o fundo insólito e a forma costumeira dá a estes movimentos, tantas vezes escondidos, um carácter mais dramático, mais violento. E também um efeito cómico, de humor. (...) Nas minhas peças, não há acção, ela foi substituída pelo fluxo e refluxo das palavras”

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