sexta-feira, 8 de junho de 2012

Versos que lembram - San Juan de la Cruz


San Juan de la Cruz


Também se pode travar conhecimento com um poeta lendo tabuletas numa rua. Calma, não são quaisquer tabuletas, nem qualquer rua. Voltando atrás e explicando melhor. Conheci San Juan de la Cruz numa rua de Segóvia, nos anos 80 do século passado. A cidade, esplêndida, dir-se-ia toda ela um poema ou uma gema engastada na desolação ocre de Castela. Mas, arroubos poéticos aparte, há mesmo poesia concreta nas ruas de Segóvia. Trata-se de um poema de San Juan de la Cruz, príncipe dos poetas castelhanos, repartido em estrofes que pontuam o percurso entre os dois conventos de Carmelitas Descalços, masculino e feminino, que o santo-poeta fazia habitualmente para visitar Santa Teresa de Ávila, sua alma afim, por finais do séc. XVI. Já não me recordo que poema está repartido ao longo desse itinerário. Mas lembro-me que, entusiasmado e reconhecendo a minha total ignorância de então em relação à poesia mística espanhola, comprei na primeira livraria que encontrei uma antologia de poemas dos dois santos, Juan e Teresa.

                Para minha confusão, mesmo após uma segunda leitura, a poesia mística pareceu-me explicitamente erótica. E ainda hoje não distingo bem se o amor referido nesses poemas é divino ou humano. Porque se serve de sugestões tão carnais, que o espírito parece ausente em parte incerta.


[…]


¡Oh noche que me guiaste!,
¡oh noche amable más que el alborada!,
¡oh noche que juntaste
amado con amada,
amada en el amado transformada!                 

En mi pecho florido,
que entero para él solo se guardaba,
allí quedó dormido,
y yo le regalaba,
y el ventalle de cedros aire daba.              

El aire de la almena,
cuando yo sus cabellos esparcía,
con su mano serena
                       en mi cuello hería,
y todos mis sentidos suspendía.  

[…]               



                Já o mesmo me tinha acontecido com a leitura do belíssimo Cântico dos Cânticos. Dir-me-ão que tudo isso não passa de um arsenal de imagens do quotidiano, mais aptas a demonstrar a união da alma com Deus do que as áridas formulações da teologia pura e dura. Sim, pode ser que tudo sejam alegorias — as alegorias não se fizeram para outra coisa. Mas continuo a duvidar. Porém — seja esta poesia inocente ou pecaminosa —, do que não me restam dúvidas é de que é poesia de altíssima qualidade. Leia-se a descrição da escapada nocturna, furtiva, da amada ao encontro do amado, em que parece que não há uma palavra a menos nem a mais. Começa assim:


En una noche oscura,
con ansias en amores inflamada,
(¡oh dichosa ventura!)
salí sin ser notada,
estando ya mi casa sosegada.



A.M. Pires Cabral

1 comentário:

  1. Vídeos

    Revista do Cinema Machadense; pela TV Alterosa (SBT)
    http://www.youtube.com/watch?v=msoR2iUr-8M

    Livro “O Anjo e a Tempestade” e Fanzine Episódio Cultural
    http://www.youtube.com/watch?v=5gyGLdnpuvQ

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