quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Versos que lembram (6) - Rainer Maria Rilke



                Vim ‘à fala’ com Rainer Maria Rilke através das traduções de Paulo Quintela, e não, como talvez fosse minha obrigação (eu era estudante de Germânicas), através do original. Mas as traduções do velho mestre de Coimbra fazem justiça, creio eu, à linguagem magnificamente certeira (ia dizer: cirúrgica) do poeta. E foram elas que me encorajaram a ler, mais tarde, alguns textos de Rilke em alemão.
                Como a muitos outros leitores, o poema “Herbsttag” impressionou-me duradouramente. Ainda hoje mal consigo relê-lo sem um arrepio de comoção. E até hoje continuo a tentar encontrar o verdadeiro sentido do poema — que aliás não precisava de ter sentido nenhum para ser uma obra-prima de ourivesaria poética.
                Com Miguel Torga, eu tinha aprendido que era possível aos poetas ‘falar grosso’ (mas com verdade) com Deus. Com este poema de Rilke aprendi que lhes era possível usar de ironia (que é a mais subtil forma de inverdade) para com o mesmo Deus.

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
Und auf den Fluren laß die Winde los.

                De facto só por ironia (ou sarcasmo) pode alguém — que na última estrofe do poema geme o antecipado desconforto e solidão do Inverno (velar, ler, escrever cartas, vaguear nas alamedas) — implorar a Deus que ponha termo ao Verão.
                À falta da tradução de Paulo Quintela, que não tenho à mão, aí vai uma paupérrima tradução minha destes três versos admiráveis que tantas vezes me lembram:

                São horas, Senhor. O Verão alongou-se muito.
                Pousa  sobre os relógios de sol as tuas sombras
                E larga os ventos por sobre as campinas.

 A.M. Pires Cabral

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