segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Crítica à Europa

Não tinhas nada que ser amada por Zeus     Europa
Agora é o que se vê        Ele foi deitar-se na praia feito touro
Os cornos fingindo luas e tu toca de lhe acariciar o pêlo
E ele vai contigo mar adentro     é o que diz o relatório da cultura
E metem-se de amores em Creta    parece que debaixo
Das ramadas dum plátano e vieram os filhos
Mas o que me interessa é o estado
A que isto chegou   minha querida
Os teus bisnetos num desemprego parvo   muitos sem tecto
E perguntando-se por que raio foi ela
Meter-se com o pai dos deuses?
Raptada   nós sabemos   mas mesmo assim   Europa
Em Creta há tantos rapazes porquê Zeus
Que é hoje um banco alemão?


Abel Neves 
"Eis o Amor a Fome e a Morte" (Cotovia, 1998)


Abel Neves (1956) é dramaturgo, poeta e romancista, com vasta obra em Portugal e muitas colaborações no estrangeiro, é autor das peças para teatro Amadis, Anákis, Touro, Terra, Medusa, Atlântico, Finisterrae e Arbor Mater, El Gringo, Lobo-Wolf e, mais recentemente, Inter-rail e Além as Estrelas são a nossa Casa. Autor, também, de textos para televisão, publicou o seu primeiro romance, Corações Piegas, em 1996, seguido de Asas para que vos quero (1997). Em 1998 publica o livro de poesia  Eis o Amor a Fome e a Morte a e em 2002 um volume de ensaios, Algures entre a resposta e a interrogação ambos na Cotovia.

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