sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Para Ser Sincero

Era cedo demais e ligaram. Bem que podia ser de um banco, do telemarketing de um cartão de crédito. Eu faria aquela mulher falsa falar um monte, explicando cada vantagem daquele cartão que eu não preciso. No final, aquela mulher falsa perguntaria “e então, qual é o número do seu CPF, o seu endereço, o seu telefone para contato, o seu telefone comercial, o seu celular, é casado, quantos filhos?” e eu responderia que não informo dados pessoais a estranhos pelo telefone, que eu não gosto de cartão de crédito, que eu só compro o que posso pagar à vista, que eu sou comunista, que eu detesto bancos, que eu detesto banqueiros, que eu detesto telemarketing, que aquele cartão de crédito que você, mulher falsa do telemarketing, está tentando me empurrar é para o banco fazer eu ficar devendo dinheiro para ele, o banco, dinheiro esse que o banco aplicaria em negócios sujos lucrativos internacionais do tipo indústria automobilística, fabricação de armas, ou alguma outra coisa suja que polua, mate ou escravize pessoas no Nordeste, no Norte, no Centro-Oeste, na África, na Ásia, gerando um lucro enorme, sempre sob a proteção do Governo, que faz questão de manter a alta lucratividade dos bancos, lucratividade recorde, para que eles, os bancos continuem sustentando Governos, continuem sustentando as campanhas eleitorais desses caras que se elegem e que favorecem esses bancos que querem me endividar e que querem lucrar sempre e que precisam lucrar sempre, muito, para financiar as campanhas desses caras que querem manter esses bancos sempre em alta lucratividade para que esses bancos financiem sempre as campanhas eleitorais desses caras que querem lucrar sempre.
      Mas não era, no telefone, a mulher falsa do cartão de crédito que me endividaria caso eu não fosse comunista.
      Era a mulher das crianças com câncer.
      A mulher das crianças com câncer também é falsa. É falsa por uma causa nobre.
     A mulher das crianças com câncer, que não pensava nada em mim, que não se preocupava nem um pouco com a minha saúde, com a minha felicidade, com o meu Natal, com a minha família, que estava preocupada apenas com as crianças com câncer, perguntou se estava tudo bem com o senhor, o senhor sou eu, se o senhor, eu, havia passado bem o Natal, se estava tudo bem com a família do senhor e eu resolvi dizer a verdade e a verdade não é nada boa para as crianças com câncer, que precisam de dinheiro, que é a coisa mais importante que existe, principalmente para crianças com câncer, que precisam tomar um leite especial, que a indústria de produzir leite até fornece com um desconto especial para a instituição da mulher que é falsa por uma causa nobre.
      Para ser sincero, eu disse que meu Natal e meu ano novo não foram legais, que eu fui visitar minha família, na praia, e a cidade de praia estava cheia de uma gente meio pobre, uma gente de uma classe baixa alta, dirigindo uns carros pagos em trocentas prestações, uma gente meio gorda com umas espinhas e umas perebas nas caras e nas bundas, umas crianças balofas comendo pastel, comendo qualquer coisa, comprando tudo, iogurte com corante, batata frita de saquinho, ouvindo música ruim, muito alto, não dava nem para ouvir o barulho do mar, e cerveja, e os caras mais pobres ainda, da classe baixa média, esses que são meio urubus, que ficam com os restos, reciclando lata de alumínio, pedindo para olhar o carro, uns adolescentes do sexo masculino, em bando, fazendo escatologia, entupindo vasos sanitários, dizendo grossuras para as meninas de classe baixa alta, todas também meio gordinhas, e eu me sentindo meio incomodado, meio que com um vazio existencial profundo. Eu disse para a mulher das crianças com câncer que eu não queria ser governado por essa gente de classe baixa alta, que está botando pra quebrar, olê olá, comprando coisas financiadas em trocentas prestações, cheias de juros, aumentando ainda mais a alta lucratividade dos cartões de crédito dos bancos, eu disse para a mulher das crianças com câncer que esqueceram de conscientizar o proletariado, eu disse que esse povo de classe baixa alta é nojento, eu que gostava daquela classe baixa que era baixíssima, aquela gente pobre e limpinha que, em qualquer praia desse litoral brasileiro que era lindo, estava lá, fritando peixe pra gente que viajava por essas praias maravilhosas do Brasil, e essa turma da classe baixa baixa, à beira-mar, até contava histórias do mar e era antigamente, nos bons tempos, essas parada. Eu disse para a mulher do câncer, que era uma mulher de instituição ligada a uma instituição religiosa dessas, aí, que acreditam em Cristo como única salvação para a humanidade, que não tem salvação alguma, óbvio, que o Cristo avisou, disse, lá, que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Eu disse que essa classe baixa alta vai toda para o Inferno, quando morrer, porque essa gente de classe baixa alta quer comprar tudo, quer é dinheiro que é a coisa mais importante que existe. E eu disse para o câncer da instituição religiosa que o Demônio existe e é o dinheiro. Eu disse a ela que eu, naquela praia, estava cada vez mais velho, morrendo, tudo doendo no coração e eu tive que dizer para a mulher falsa, falsa por uma boa causa, que é o câncer das crianças pobres, que a indústria de produzir leite, ao invés de dar um desconto na venda do leite especial das crianças com câncer, deveria era dar o leite de graça, já que eu, da classe média média, já pago impostos demais e sofro muito com medo de uma velhice de classe baixa média, mas eu sei que a indústria que produz leite não pode abrir mão de seus lucros, já que lucro é a coisa mais importante que existe para uma empresa e eu e os meus pais e a classe baixa alta estamos morrendo todos, bem feito. Eu disse para a mulher das crianças que estavam com câncer que ela não deveria pedir esmola a esse pessoal da classe média média. Eu disse que ela deveria era convencer a classe baixa alta a fazer uma revolução comunista e obrigar a indústria de produzir leite a salvar as crianças com câncer.
      E eu não doei dinheiro algum para as crianças que vão morrer de câncer.


André Sant’Anna    

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