quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O hortelão de calção de banho





Para descansar do trabalho no banco, para se livrar da confusão da cidade e para ter um tempinho só para ele, Manuel Benigno Lopes vai quase todos os sábados à horta junto à barragem. É um pequeno retângulo de terreno que os pais lhe deixaram, onde planta batatas, couves, tomates, cenouras e alho francês. Se está um dia bom, aproveita para dar um mergulho na água da barragem ali mesmo ao lado. Até porque Flávia não vê com bons olhos estas suas escapadas hortícolas — Manuel não sabe porquê, talvez por  nunca ter gostado dos pais dele, que eram gente humilde e sem maneiras, ou por não lhe parecer muito viril isto de um homem se entreter a plantar legumes — e, se ele disser que vai nadar, a coisa já parece mais aceitável. Das primeiras vezes levou as filhas, mas agora vai sozinho. Ana e Susana andam ocupadas com estudos, amigas e namoros (a mais velha, pelo menos), de maneira que ele já nem lhes pergunta se querem ir “dar um mergulhito à horta”.
                Hoje, ao regressar, bateu contra um animal na estrada. Não pôde fazer nada, o bicho atravessou-se à frente do Peugeot. Manuel travou a fundo, o susto subindo-lhe pelos músculos dos braços e das pernas, mas foi tarde demais.
                Era um cão.
                Na estrada deserta Manuel sai do carro e olha o animal: deitado no asfalto, como que a dormir, sangue negro contornando-lhe o corpo, uma sombra líquida. Um cão bastante grande, de pêlo castanho e olhos escuros; um focinho até nem dos mais feios.
                Mas está morto. Manuel já não pode fazer nada por ele. Volta para o carro, segue para casa.
                Ao jantar (empadão, a comida preferida das filhas), ensaia mentalmente a melhor maneira de contar o que aconteceu. A mulher fala de uma loja “estupenda” que vende roupa “com muita classe” a “preços aceitáveis” e descreve os vestidos com grande pormenor. As filhas não largam os olhos dela. Perguntam-lhe por tamanhos e promoções. “Nem imaginam, hoje, quando vinha da horta...” “Quando voltei da barragem, hoje...” Não, pensa Manuel. Talvez seja melhor não falar de morte à mesa.
                Veem a nova telenovela da SIC, e depois as miúdas vão para o quarto ouvir música e navegar na net. Flávia deita-se na cama a ler um romance que traz na capa a fotografia de um homem e uma mulher, penteadíssimos, a simularem um beijo apaixonado. No sofá Manuel folheia o Correio da Manhã.
                À noite, sonha que está a ver um documentário sobre “a natureza portuguesa”. Planos de árvores, pássaros, campos, e sobre isso uma voz mansa que vai descrevendo o que está à vista: “oliveiras centenárias”, “garças em formação de voo”, “gado a descansar”. Manuel assiste ao programa com prazer, sentindo que aquela combinação de imagens conhecidas e narração arrastada lhe dá uma paz maravilhosa. Não se sentia tão bem há séculos. Mas, de repente, a estrada.
                A câmara avançando, num voo veloz sobre o asfalto, até descobrir o corpo caído — detém-se num grande plano do focinho. Moscas nos olhos inexplicavelmente ternos do cão, e a voz do documentário põe-se a falar de “spreads” e “juros”, “taxas” e “créditos” e “margens”. A linguagem que ele e os colegas usam no dia-a-dia do banco, meu Deus. “Capital”, “risco”, “planos”,  “dividendos”, “garantias”, “bruto” e “líquido”, “líquido” e “bruto”.
                 Às sete da manhã, Manuel levanta-se. A mulher pergunta-lhe, ensonada, o que é que se passa e ele diz que vai nadar. Não sabe porquê, para quê, mas tem de lá ir outra vez.
                “Leva o lixo”, diz ela.
                O cão já não está na estrada. Manuel estaciona o automóvel na berma, numa zona mais larga, e dá uma volta a pé, à procura. Encontra-o junto de uns arbustos cheios de pó. Alguém o terá arrastado para ali, talvez um agricultor ou um pastor. Ou talvez um automobilista mais consciencioso. O bancário olha o cadáver. Era bonito o raio do bicho. Teria nome?
                Abre o portabagagens, pega no grande saco negro e vira-o ao contrário, esvazia-o de todo o lixo. O desperdício produzido em dois dias pela sua família forma agora um montinho na berma; um monumento ao mau cheiro. Depois aproxima-se do cão morto e, com um cuidado clínico, criminoso, enfia-o no saco. Usa as duas mãos para levantar o volume negro do chão. É como se tivesse nos braços um bebé gigante, de plástico e sem forma. Um peso espantoso.
                Nesse momento, o barulho de um motor: passa um Mercedes a acelerar na direção da cidade. Manuel levanta os olhos. Ainda bem que não é ninguém que ele conheça.
                Muito devagar, deposita o saco no portabagagens. Sobre o automóvel, o céu azul, um silêncio perfeito.
                Depois de ter enterrado o cão, Manuel larga a pá e deixa-se ficar um momento na horta a admirar o resultado do seu trabalho. Não está inteiramente satisfeito, ainda falta alguma coisa. O quê, devia dizer umas palavras? Devia cair de joelhos e dizer uma oração, rezar ao deus dos bichos? Sem pensar, dirige-se à casinha de apoio onde guarda as ferramentas e pega numas sementes de cebola que deixara ali para o dia certo. É hoje o dia certo.
                Passado um bocado, olha o retângulo de terra castanha, ou negra, ou vermelha, onde plantou cebolas, e sente que sim, agora sim, fez o seu trabalho. Parece-lhe adequado que, sobre aquela morte tão estúpida, cresçam bolbos que choram.
                Do outro lado, a água da barragem; lisa e brilhante como uma lâmina.
                Manuel mergulha, nada uns metros em linha reta.
                Cá fora, seca-se ao sol, de pé, de cabeça vazia.
                Por fim, volta ao automóvel e faz a estrada de regresso. Guia calmamente, meio distraído com a paisagem que devia estar farto de conhecer. Não há domingos no campo, pensa.
                E, quando surge a placa a indicar a cidade, não vira. Segue em frente, continua viagem sabe-se lá para onde. No Peugeot, um leve cheiro a lixo, mas ele não se importa. Não se sentia assim há quanto tempo? Imagina a sua figura a sair do automóvel numa estação de serviço qualquer, daí a duzentos ou trezentos quilómetros — com aquele calção de banho florido e aquelas unhas cagadas de terra —, e ri como um perdido.


Jacinto Lucas Pires
               
               

Sem comentários:

Enviar um comentário