segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Fragmentos de "É mais difícil cuidar de batatas do que de ginseng"



 Diário de bordo, 21 de janeiro

Meio-dia, o silêncio habitual que se faz a essa hora. Entrou um homem no vagão-restaurante e sentou-se ao meu lado. Pediu desculpas por estar ali, acomodou os cotovelos à mesa e disse: não conheci meus pais, nem mesmo por fotografia. Moro nas hospedarias das estações de trem e, quando viajo, quase sempre consigo uma cama no vagão dos empregados em troca de trabalho, sou ajudante-geral, aguardo os imprevistos. Quando dois precisam de mim à mesma hora, não é problema meu, são os outros que decidem. Nas hospedarias, pago 10 copeques por noite e 12 nos finais de semana. Vendo objetos usados, coisas encontradas nas estações ou que ficaram esquecidas no trem. Durante as viagens recolho a comida que largam nos pratos, os últimos goles de vodca, pontas de cigarro. Tinha os olhos muito claros e mãos musculosas. Perguntou-me de onde eu vinha. Voltei-me para a janela, e aqueles amáveis olhos azuis foram repentinamente engolidos por um rosto duro inexpressivo. Nos despedimos sem nos tocar.


Diário de bordo, 24 de janeiro

O trem é um quadro móvel no branco para quem está do lado de fora. Mas não há vivalma do lado de fora. Em qualquer direção que se olhe há sempre o branco. Para quem está do lado de dentro há a total ausência de movimento do lado de fora. O trem chacoalha e parece que chacoalha parado no mesmo lugar. Nota-se que anda somente quando um pedaço de gelo é despregado da janela pelo vento. A Sibéria é uma homenagem aos mortos, ao desaparecimento, à fossilização do espaço. Outros homens já passaram pela Transiberiana fazendo o caminho inverso ao meu, deixando para trás a Europa, rumou ao oriente, ao lado de uma doce Jeanne. Enquanto nós seguimos para a capital. O que nos alivia um pouco a longa viagem é saber que chegaremos em um lugar com bairros, bairros com ruas, ruas com nomes. Construções sólidas por onde pessoas se cruzam, se esbarram, se olham ou, pelo menos, concordam que ali coexistem. No Transiberiano não é assim, você não existe. Somos um monte de trouxas ambulantes pelos corredores, cabeças baixas, bocas secas. Ninguém é homem ou mulher, jovem ou velho, simplesmente anda-se, indo e vindo para a cabine, para o vagão comum, para um chá.


Valeska de Aguirre

Sem comentários:

Enviar um comentário