quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Catulo é um nome que apetece ler todos os dias


“Catulo é um nome que apetece descascar, como uma laranja.”
Gonçalo M. Tavares, Biblioteca

            Catulo é um nome que apetece ler todos os dias. Se for em latim, para sentir o sabor agridoce que lhe escorre das sílabas, tanto melhor. Mas se não se achar latim, petisco tão raro nas tabernas de hoje, então envolvam-se-lhe os pés e as estrofes em grossa casca da língua que com pouca corrupção se cuida ser latina, e sirva-se a quem a gula aperta. Porque Catulo também é um nome que apetece traduzir. Todos os dias.
            Catulo já tem dois mil anos e mais quase cem, a contar do dia em que viu a luz na cidade de Verona, numa época ainda sem romeus nem julietas. Foi lá para os anos 80 do século I a.C.. Mas tem envelhecido bem. Talvez não lhe tenha feito mal ter-se escondido ao longo de toda a Idade Média, para ressurgir em três manuscritos do século XIV, e saciar-nos um apetite que nos fora aguçado pelas referências dos seus contemporâneos. A ele não lhe terá feito mal. A nós fez, que estivemos mil anos sem saber dele.
            Catulo nasceu em família endinheirada e bem relacionada. Passava temporadas na sua villa nas margens do Lago di Garda. Depois foi para Roma, e passava temporadas em tabernas lascivas. Escreveu poemas latinos com metros gregos, onde cantou as maravilhas da sua terra, chorou o irmão morto, insultou e gozou inimigos. Arrasou o hispânico Inácio, que lavava os dentes com urina. E Rufo, que fedia a bode dos sovacos. E Marrucino, que surripiava guardanapos, e Tálio, que lhe roubou o  manto, e Vibénio, ladrão nos vestiários dos banhos públicos, e o seu filho prostituto de nádegas peludas, e Rufa, amante de felações e ladra de cemitérios. Ameaçou a boca e o rabo dos que diziam mal da sua poesia. Disse mal de Júlio César, disse que se estava nas tintas para ele. Ofendeu os poderosos amigos do ditador, a um apodou-o mesmo de Sr. Caralho, nome que não se chama a ninguém – valeu-lhe a clemência daquele que haveria de morrer nos Idos de Março, que acabou por amainar as fúrias, após um pedido de desculpas do nosso Catulo.
            Catulo não teve amores fáceis. É verdade que encomendava fodas para depois do almoço. E que quis beijar trezentas mil vezes os olhos de Juvêncio, e que tinha os seus rapazinhos para se divertir, e que isso não o afectava demasiado. Mas amou a mulher errada. Amou essa infame Lésbia, essa Clódia que tantos amaram. Amou e odiou e não sabia porquê. Chorou-lhe o passarito morto, o passarito que se lhe sentava no colo e só para ela pipilava. Pediu-lhe que amasse sem cuidar do que sobre eles se murmurava. Pediu-lhe centenas de beijos. Rastejou por ela. Depois viu-a descascar coisas inomináveis (não eram laranjas) em becos e vielas. Chamou-lhe mentirosa. Achou-se louco. Odiou-a. E se calhar sabia porquê.
            Depois morreu. Andaria pelos trinta anos e deixou um monumento da literatura ocidental. E é por isso que Catulo é um nome que apetece ler. Todos os dias.


André Simões

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