segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Casa da música

© Li Hui
O metro parou na estação casa da música. Foi ali que tudo começou. Eu estava sentado de frente para ela. Uma rapariga. Trazia óculos escuros, mas eu vi. Desde o início, eu vi. De outro modo, talvez nem tivesse reparado nela. Uma lágrima, primeiro. Duas, três, quantas, muitas, pouco depois. Ela a disfarçar, primeiro. Um dedo a secar a primeira, outro, a segunda, procurando disfarçar, a mão toda espalmada, espalmando-se, desistindo depois, a rapariga, incontendo-se então, elas a escorrerem, ela a tirar do saco um lenço de papel, assoando-se discretamente, depois ruidosamente, largando a vergonha, o pudor, a dor, mais um lenço, ensopando-os, ensopando-os, voltando a guardá-los no saco, amarrotando-os, ainda assim com tanta delicadeza que quem me dera. Retirou os óculos escuros, rosto enfim a nú, lindo, lasso, reluzindo do choro, da tristeza, não era desespero, toda ela meiguice, mesmo desfeita, mesmo desfazendo-se à vista de todos. Limpou o pescoço, o peito, a barriga, o baixo ventre. Levantou a saia, as coxas molhadas, mais e mais água vivida deslizando-lhe pelas pernas, os tornozelos gotejando para o chão da carruagem. Meu deus, toda ela lavada em lágrimas, banhando-se, banhada, e eu ali, à sua frente, pestanejando, mexendo-me sem propósito, debruçando-me na sua direcção com o intuito de sei lá o quê, querendo valer-lhe, tanto, mas como, como. Agora, sim, a água encharcava-me os chinelos de praia, de cidade, de andar, de pisar, de quê, escorria pela carruagem, inundava-a, a tristeza e a meiguice confundidas alagando-se ambas, confundindo-se mais, como se mais fosse possível, o metro continuando parado na casa da música, alguns segundos, poucos, algumas horas, poucas, o tempo liquidificando-se. Na carruagem, a maré subindo, subindo, até à preia-mar, sem hora marcada, as toalhas ensopadas, os livros areados, salgados, as letras deslavando-se, o vento, o vento sabia a iodo e a algas, ouvia-se ao longe o marulhar, se da cidade se das ondas.
As portas deslizaram, o metro reiniciou a marcha, acelerou, lançou-se na escuridão, regressou à superfície, lançou-se de novo na escuridão, luz e sombra vez a vez. Estação de campanhã. A rapariga ergueu-se, direita, discreta, distinta, pegou no saco amarfanhado, atafulhado, saiu, os óculos escuros postos, o passo calmo, o corpo por certo sossegado. A tristeza e a meiguice confundidas, quem nos dera. Entretanto, sim, palavra que é verdade, não que me faça diferença, que acreditem ou não, mas para que fique registado, entretanto, naquela carruagem já ninguém gritava por socorro, já ninguém se debatia, já ninguém sequer respirava. Os corpos boiavam, flutuavam junto ao tecto, enlaçavam-se, entrosavam-se, tristeza e meiguice confundidas. Até o meu, até o meu. Até que enfim.
A rapariga, não voltei a vê-la. Desapareceu. Com aqueles olhos que quem me dera. Todos os dias tomo o metro, todos os dias acontecem coisas. Todos os dias nos afundamos ou flutuamos ou… De cortar a respiração, todos os dias. Que sufoco, que supremo.   

Bénédicte Houart

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