quarta-feira, 13 de julho de 2011

Último suspiro


Faz hoje cinco anos que morri. Eu própria não o saberia se ainda há algumas horas não tivessem descoberto o que resta do meu corpo. Vejam lá, tive direito a abertura dos noticiários da tv. Não mostraram a minha carcaça por pudor. Alguém há-de filmá-la e assim viajarei mundo fora pela internet. Em vida, fui a fátima duas vezes, uma de carro e outra a pé. Comprei alguns santinhos e umas miniaturas da basílica para oferecer. Quando fui a pé e os últimos cem metros de joelhos foi porque pedi a deus que não curasse o meu marido. Deus é bom. Atendeu-me. O meu marido durou mais meio ano, se tanto. Antes de morta, pouco me ligaram. É certo que preferia, a ser assim, estar viva ainda. Diz o povo que mais vale tarde do que nunca. Pois bem. Aqui estou eu. Só ossos, nem carne nem pele. Vão autopsiar-me, ou lá o que é. Autopsiar-me, sim. Autopsiar-me, pois. Para quê? A pouca carne que sobrou? Os ossos chupados? Aquilo que realmente interessa, dava um livro, o meu livro, mas eu não sei ler só sei escrever, aquilo que realmente interessa como se eu pudesse sequer recordá-lo, gostos e desgostos, dia assim dia assado, e tudo isto vida fora, e por vezes como se eu estivesse a ver-me viver sentada à janela do 3º andar, rua das gaivotas, olha aquela que vai ali em baixo, nem bonita nem feia, nem magra nem gorda, nem feliz nem infeliz, o cabelo meio desbotado, as pontas espigadas, a roupa barata comprada nos hipermercados, disso tudo que constituiu a minha vida, e até provavelmente a minha morte, há quem diga medíocre ou pelo menos banal, a vida, e até isso, garanto-o eu, a minha morte, mas quanto à morte, é sempre medíocre, não é verdade?, salvo se eu tivesse morrido num campo de batalha, e ainda se assim tivesse sido era com certeza soldado raso, que eu nunca tive jeito para impor-me a ninguém, pois bem, disso tudo eles não hão-de encontrar nada. Não, nada. E portanto aqui estou eu, vagamente divertida, pelo menos curiosa, observando-os atarefados como em vida nem o meu marido alguma vez, não havia vagar para tão pouco e eu não sabia, de vez em quando eu tocava-me com a ponta dos dedos sentindo-me envergonhada por gostar daquilo sozinha enquanto com o meu marido nada, e os filhos entretanto crescidos, e depois nada, uma carta de vez em vez, um telefonema nos meus anos e no natal, e depois mais nada, até esse dia, há cinco anos dizem eles, eu acredito, eles é que sabem, o que vos posso dizer é que senti uma dor aguda no peito, esse peito onde os meus filhos comeram e cresceram para mais tarde desandarem, esse peito onde o meu marido gostava de descansar a cabeça depois de se pôr em cima de mim, a cama estremecendo e eu nada, e deu-me então essa dor aguda no peito de modo que me sentei no sofá e nem pensei vou morrer, pensei que a vida era madrasta, ou melhor, pensei a vida foi-me madrasta, puta da vida foi o que pensei, puta da vida, e depois mais nada, nem um suspiro, se eu soubesse que era o último nem assim o teria soltado.

Bénédicte Houart   

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