sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Fim dos Tempos

      Era verdade, os cara tinha razão: um belo dia, creio que em 2012, o Cristo voltou para realizar o Juízo Final. E ele estava irado dentro das calça. Jesus desembarcou em Roma e foi logo atrás do Berlusconi, a fim de usar a RAI para fazer um pronunciamento ao planeta. O Berlusconi, então, tentou negociar, armar umas parada, descolar uns patrocinadores, mas foi fulminado imediatamente por um raio, indo diretamente para o quinto dos infernos. Jesus não tinha saco para capetinhas de baixa estirpe. O Cristo também dispensou a equipe técnica, distribuindo vinho, de graça, pro pessoal todo ir fazer uma happy-hour. Então, o Cristo estalou assim os dedos e o estúdio todo pós-digital começou a funcionar, edição ao vivo, Hans Donner etc. etc.. Ondas de luz foram emitidas e saíram por aí na cola dos satélites girando ao redor da Terra, que era um dejetozinho de micróbio perdido na imensidão caótica do Universo repleto de buracos negros devoradores de galáxias. As ondas de luz bateram lá nos satélites e retornaram à Terra para serem exibidas a todas as criaturinhas racionais do dejetozinho de micróbio, pela mídia.
      O Cristo falou:
      “Olha só, povo de Deus: A minha Palavra não era tão complicada assim. Era amor, perdão, não-violência, desapego, humildade, solidariedade, compartilhar o pão etc. etc.. Meio até que óbvio. Ululante. E eu ainda usei as parábolas mais bobinhas, mais simplificadas, aquelas frases – quem nunca pecou que atire a primeira pedra; é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus; vinde a mim as criancinhas (acho que esta parte foi mal interpretada), os pobres de espírito, os inocentes, os perseguidos, os leprosos, os humildes; perdoar o inimigo; perdoar até o Bush Filho, o Bush Pai, o Bush Espírito Santo, percebes?! Mas não, meu Jesus Cristinho, neguinho é muito burro. Conseguiram transformar meu Pai e Eu em bedéis de colégio antigo, que se metem na vida pessoal dos outros, vigiam menino se masturbando no banheiro, controlam o comprimento da saia alheia, o cabelo, o tipo de sexo que neguinho faz, coisa de comadre fofoqueira. E eu lá falei alguma coisa de sexo na minha passagem por aqui? Até o Freud, que, embora ateu, tinha uma inteligência razoável, não mostrou claramente também que esse negócio de reprimir instintos só causa neuras, problemas emocionais de toda ordem, taras sexuais sórdidas etc. etc..? Na minha primeira vinda, eu apontei o caminho. Servi de saco de pancada só pra vocês perceberem a própria selvageria e brutalidade. Vocês, lá, com aquelas caras de figurante de quadro do Bosch, apedrejando adúlteras, torturando gente na cruz, estuprando criancinha. Aí me inventam uma religião esquisita, usando meu santo nome em vão para exterminar povos inteiros, escravizar, torturar de modo obsceno e sádico, além de queimar gente viva, mulheres, artistas, cientistas etc. etc.. Nunca fizeram uma coisa que prestasse pela humanidade e vêm dizer o que os outros podem ou não fazer com a genitália que Deus lhes deu. Mas, se é para falar de sexo, vamos pensar em ambientes fechados, com presença exclusivamente masculina, mestres adultos masculinos educando rapazes aprendizes masculinos, conventos, mosteiros, quartéis. Queria o quê, ô Vossa Santidade? Só não me venha dizer que esses sujeitos todos vestidos de dourado e púrpura, anéis, tiaras e penduricalhos magavilhosos sejam meus representantes na Terra. E, antes que vocês me botem de novo numa cruz, quer saber?”
      Foi só um barulho assim, TUM, e acabou tudo.     

André Sant´Anna
              

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