segunda-feira, 27 de junho de 2011

Versos que lembram (3) - Miguel Torga


 Hoje lembrou-me um poema — por sinal um poema ‘estafado’; entenda-se: abundantemente (re)citado — de Miguel Torga. Mas a memória tem razões que a razão desconhece — paráfrase igualmente ‘estafada’. O poema chama-se “S. Leonardo de Galafura”, lê-se no Diário IX e acho que me vem às vezes à memória por uma razão improvável: por vingança. Isto é, o poema vinga-se por, durante tanto tempo, eu o ter lido levianamente, sem chegar ao seu verdadeiro fundamento, digamos, ético.


Comecemos por transcrevê-lo:

 À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
De eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Douros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o barco avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho.

Pois que via eu neste poema, lido vezes sem conta, algumas delas na própria parede da capela do santo visado, onde está estampado num painel de azulejos? Via apenas aquilo que decorria do rótulo de Torga como poeta duriense, isto é, cantor apaixonado das belezas locais: via portanto uma glorificação da paisagem, a que o próprio S. Leonardo era sensível.
Só bastante mais tarde, comecei a ver outra coisa, maior e mais importante, e que prendia não com ‘Torga poeta do Douro’, mas com ‘Torga Orfeu rebelde’: o antagonismo entre transcendência e imanência, entre o ‘cais divino’ e o ‘cais humano’, entre o além e o aquém. E percebe-se de que lado Torga está: ele acredita na superioridade do mundo real e natural sobre o mundo ideal e prometido. S. Leonardo demora-se gozosamente na viagem para o destino (‘Sem pressa de chegar’) porque sente mais forte o apelo da origem (o ‘cheiro / A terra e a rosmaninho.’).
 E dizer que andei tanto tempo a ler mal este poema!

A.M. Pires Cabral

1 comentário:

  1. Será que me pode dizer onde posso encontrar o poema "Distância".

    Obrigada,

    Ruth

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