quarta-feira, 22 de junho de 2011

Uma rosa para faulkner

Vinte anos dormi a teu lado. Vinte. Não que eu os contasse. Sentindo-os, antes os descontava. Ou nem isso. Nem os anos, nem os meses, nem dias. E as noites, que noites, talvez só houvesse noites, talvez uma só, imensa, contínua, palpável. Sei o que dirão. Sei que dirão que eu vivia a escuridão toldando-me as ideias, ou então uma luz demasiado intensa que me cegava e os olhos e o cérebro. Sei que dirão que eu já não vivia, cadaverizada antes do tempo. Bem sei que encontrarão teias de aranha esvoaçando pela casa, poeira de tempo entranhada nos móveis, nos tecidos, nas cortinas, entre as teclas do piano desafinado, entre as madeixas do meu cabelo deslavado. Dirão “a velha” referindo-se a mim. Miss Emily, solteira velha virgem desperdiçada destrambelhada. Mas, meu amor, era eu que te aquecia os pés gelados, era nas tuas pernas que as minhas se entrelaçavam, e o teu torso os meus braços apertavam. Por vezes, eu, agarrada a ti, outras, eu, só pousada para te não acordar. E, de madrugada, arejando o quarto, mudando os lençóis, abrindo as portadas para que a luz do sol iluminasse o teu belo rosto. E maquilhando-me horas para que reconhecesses sempre a menina que disseras amar e que de ti decidira nunca abdicar. E juro que às vezes mal me tocavas e eu ouvia logo sinos a rebate sacudindo-me o corpo esquálido, ecoando-me nas veias azuladas, oscilando no meu cérebro entorpecido. Nessa tristeza alegre que me servia de consolo e que eu não trocaria por nenhum outro sentimento.
Enterrar-te-ão comigo, se não juntos, pelo menos à mesma hora do mesmo dia do mesmo mês da mesma terra. A noite prolongar-se-á velando-nos. Todos hão-de pensar que te matei desde esse dia em que desapareceste da vila quando me disseste que não me querias e eu não acreditei. Mas ninguém ousará dizê-lo em voz alta. Tudo o mais, sim, mas isso não.
Noblesse oblige.                                                     

Bénédicte Houart

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