segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sábado (Não se pode viver sem Goldoni)


Não têm sido especiais estes sábados, houve um de reflexão (para quê?) antes de eleições, outro houve de recuperação (depois de eleições). E agora que a vida recomeça, dizem-me da Cotovia que está prestes a sair o terceiro volume do TEATRO de Goldoni que ajudei a escolher. Este tem a Vilegiatura, obra maior do realismo, retrato de sociedade e das secretas pulsões do indivíduo dentro do grupo que abriu o teatro a esses retratos de conjunto em que Tcheckhov se iria especializar para nosso sofrimento (credo, aquelas Três Irmãs que vi recentemente no Nacional, que pinderiquice, que piroseira!). Goldoni, veneziano, é, para o teatro, aquilo que Rossellini foi para o cinema: descobriu que num palco tudo cabe, chávenas, café, sombrinhas, férias, letras cambiais, contratos matrimoniais, testamentos, tudo o que faz a vida. Ele que disse "tudo pode ser teatro". Tudo, inclusivamente o fim da tarde sobre uma sociedade. Na Trilogia antevemos não apenas os grandes russos, como Lampedusa, as cortinas esvoaçando à brisa do Mediterrâneo, o cheiro a alfazema dos quartos das raparigas, o suor da tardes de verão, o tédio que haveria de fazer nascer, daí a pouco, o romantismo. Pois é, não se pode viver sem Goldoni. E estes três volumes, na ausência de palcos que os respeitem, hão-de durar o tempo de uma vida, esperando as vozes dos actores, as luzes límpidas dos projectores, a seda, o algodão, os corpos. Mas farão as noites tranquilas dos homens de boa vontade. Se ainda for possível sê-lo.


Jorge Silva Melo

O terceiro volume de "Peças escolhidas" de Goldoni vai ser publicado pela Cotovia no final deste mês.

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