quinta-feira, 2 de junho de 2011

Parto

                                                               Jan Saudek: "Estás a me ouvir?" (1974)

“Se você sentir dor não é um dos nossos.” Naomi Kawase


Até aquele dia jamais havia pensado em como meu filho sairia de mim. Ou melhor, jamais havia pensado que ele sairia de outra maneira que não aquela como eu saí de minha mãe, minhas irmãs saíram de minha mãe, os filhotes de Hanna saíram de seu ventre um de cada vez no quintal de casa. As meninas aprendem desde cedo que podem carregar um outro na barriga e que é ele, o bebê, quem dá os primeiros sinais de que chegou a hora de sair. Até o dia em que completei 41 semanas de gravidez achei que fosse assim. Mas esse número cabalístico é o final de um ciclo no calendário dos obstetras. E a nós cabe obediência e gratidão aos médicos, por salvarem as nossas vidas – e a de nossos filhos.
                – Vire-se de lado e relaxe. Será somente uma espetada nas costas, mais especificamente na coluna, você sentirá um líquido frio escorrendo pela sua espinha dorsal até atingir a região lombar, local que queremos anestesiar. Mas não se preocupe, continuará sentindo cada movimento, o corte, a abertura, a força que aplicamos para abrir as várias camadas que protegem o seu bebê, mas acredite em nós, fazemos isso todos os dias, e não sentirá dor. Seus braços estão tremendo muito porque está nervosa, tente relaxar, essa luz branca que te cega é para que possamos ver os seus órgãos, acredite em nós, tudo continuará no lugar depois que seu bebê sair. Iremos costurar todas as camadas novamente e a linha será absorvida pelo corpo, não é genial? E a pequena cicatriz que restar será o nosso monumento que celebramos no Dia do Médico. Cuide bem dela, você é uma boa menina. Mas agora relaxe, seus braços estão sacudindo muito, por que está nervosa? Conte-nos, o que você faz da vida? Quais línguas você fala? Pratica esportes? Gosta de comida japonesa? Tem medo de andar de avião? Já saltou de pára-quedas? Chupou chupeta? Ainda chupa?
                – Sou eu, mamãe, tá tudo bem, meu amor. Agora vão te medir, pesar e lavar, nos encontraremos no quarto assim que me fecharem. Não tenha medo, eles são só os médicos.  

Valeska de Aguirre

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